sábado, 3 de novembro de 2007

Mãos Pequenas



Não conheço o Calebe. Nunca falamo-nos. Todavia, conheço sua mãe (Alessandra Motta), e sei, por meio dela, que ele é um menino adorável. O Calebe mal completou oito anos, mas tem algo diferente das crianças de sua idade: O Calebe é um servo. É entregue. É desses que correm para os braços de Jesus e Ele diz: “Deixai-o vir a Mim”.
Alê me mostrou fotos lindas do batismo do Calebe. Desceu às águas. Novidade de vida. Ele nem tinha 'velhidade' de vida, você dirá. Sim, você terá razão. Oito anos não é muito – para mim, ainda é um bebê (considero assim os meus sobrinhos). Você dirá que crianças não sabem de quase nada. Alguns dirão que crianças não sabem de nada. E que não podem crer - mas dessa vez você não terá razão. Quase posso ver Jesus no meio dos doutores; fecho os olhos e eis Paulo aos pés de Gamaliel.
Crianças sabem sim. Sabem muito. Sabem tanto que sabem a quem amar. Quase sempre. Deve ser por isso que Jesus nos aconselhou a sermos como elas. Ele disse que delas é Seu Reino.
Receio, admito (e a Alê também), por sua pouca idade, mas vou transcrever o que disse à ela: "Deus nos quer como crianças. Quer nossa dependência e nossa entrega. Ele geralmente nos resgata do mundo, cura nossos corações corrompidos e nos torna crianças outra vez. Há momentos, no entanto, em que Ele já as busca enquanto crianças. Há espaços onde apenas mãos pequenas podem alcançar. Há obras para as quais Ele precisa de mãos pequenas. Há orações que só podem brotar desses pequenos corações".
É assim que desejo segui-lO. Quero confiar. Quero depender. Não quero fugir na primeira dificuldade e tentar resolver as coisas do meu jeito – como quase sempre tenho feito. Não! Quero chamar meu PAI para resolver. Quero ser como uma criança. Não daquelas mimadas que só desejam coisas, mas daquelas que sabem que não precisam trabalhar porque seus pais, ou um deles, lhes providencia o sustento.
Oro pelo Calebe. E pela Gi, pelo Gui, pela Dudinha, pela Mi, pela Manu. E por mim... para não cometer, para sempre, os mesmos erros.
(Dáuvanny Costa)

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Ouvindo - Eu vou Seguir

"Eu sei que os sonhos são pra sempre
Eu sei aqui no coração
Eu vou ser mais do que eu sou
Para cumprir as promessas que eu fiz
Porque eu sei que é assim
Que os meus sonhos dependem de mim
Eu vou tentar
Sempre
E acreditar que sou capaz
De levantar uma vez mais
Eu vou seguir
Sempre
Saber que ao menos eu tentei
E vou tentar mais uma vez
Eu vou seguir
Não sei se os dias são pra sempre
Guardei você no coração
Eu vou correndo atrás
Aprendi que nunca é demais
Vale a pena insistir
Minha guerra é encontrar minha paz
Eu vou tentar
Sempre
E acreditar que sou capaz
De levantar uma vez mais
Eu vou seguir
Sempre
Saber que ao menos eu tentei
E vou tentar mais uma vez".

Marina Elali - Eu Vou Seguir (Versão de Marina Elali e Dudu Falcão)

Ressuscita-me

Não poderei me abster de comentários ao tópico anterior. Preciso fazê-lo. Não seria responsável se não o fizesse.
Todos os dias morro. Sou Lázaro. Termina o dia e termino eu. Desfaço-me em lágrimas. É o mesmo ritual. Algumas vezes, no entanto, há agravante. Agora é uma dessas vezes.
Todos os dias morro.
Ressuscito pela manhã. Obrigo-me.
Quantas vidas terei?...
(Dáuvanny Costa)

"O coração que aprende a morrer com Cristo logo conhece a bendita experiência de ressuscitar com Ele, e todas as perseguições do mundo não podem silenciar a nota aguda de alegria santa que brota na alma que se fez habitação do Espírito Santo." (A.W.Tozer)

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Insuportável

Hoje não aguento mais...
ultrapassei todos os limites possíveis do suportável.
Vou ali morrer e já volto.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 28 de outubro de 2007

Ouvindo - Sonho Impossível

"Sonhar
Mas um sonho impossível,
Lutar, quando é fácil ceder,
Vencer, o inimigo invencível,
Negar, quando a regra é vender.
Sofrer, a tortura implacável,
Romper, a incabível prisão,
Voar, no limite improvável,
Tocar o inacessível chão.
É minha lei,
é minha questão,
Virar esse mundo,
Cravar esse chão.
Não me importa saber
Se é terrível demais,
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz.
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão,
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão.
E assim, seja lá como for,
Vai ter fim a infinita aflição.
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão".
(Chico Buarque/Ruy Guerra)
Versão da música “The Quest - The impossible dream” de Joe Darion/Mitch Leigh

Escritores versus Vendedores de Livros


Dia desses, alguém, ao ver um folder de livro, perguntou-me se eu poderia, em poucas palavras, falar sobre o que havia escrito. Perguntou-me, sem rodeios, se eu poderia resumir meu livro para ele se decidir (ou não) pela compra. Pergunta, aliás, que os escritores adoram; anos escrevendo para alguém querer apreender sucintamente, para decidirem se comprar. Ah! A alma humana!...

- Pode explicar melhor?...

- Posso, mas não quero.

.
(Dáuvanny Costa)

sábado, 27 de outubro de 2007

Leonardos

Ontem visitei uma exposição de Da Vinci.
Leonardo da Vinci é considerado por muitos o maior gênio da história, devido à sua multiplicidade de talentos para ciências e artes, sua engenhosidade e criatividade, além de suas obras polêmicas. Num estudo realizado por Catherine Cox, seu QI foi estimado em cerca de 180. Outras fontes mencionam 220.
Impressionante como a mente humana é ilimitada. Somos nós que a contemos...
(Dáuvanny Costa)

A ti - tudo o que sei

Amo-te. Ainda. E sempre. E hoje é apenas isso que eu sei.
(Dáuvanny Costa)

Cláusulas

"Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas de amanhã
com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento que lembra a Terra e sua púrpura demente?
E mais aquela ferida que me inflijo a cada hora,
algoz do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea".
(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Poema em Linha Reta

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza".
(Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Eu terei esperança?


Estava procurando algo para escrever aqui. Não poderiam ser meus pensamentos tampouco poderiam ser meus sentimentos porque hoje estou com a angústia dilacerando minha alma. Procurei em meus arquivos. Apenas relatos desesperadores. Não servem, pensei. Desisti de escrever. Visitei alguns blogs. Encontrei o texto abaixo no do meu amigo, André Lamano. Um texto gritando sobre coisas difíceis. O mundo pensa que é fácil. Eu poderia escrever mais umas 16 páginas apenas falando das coisas difíceis que vivi e que tenho vivido. Para quê? Isso não apaga minhas dores; não dissipa minha angústia; não alegra meu coração, e não alcança o leitor. Para quê? Isso não apaga as coisas horríveis - e às vezes ridículas - que tenho de suportar. Perdas, dificuldades, incertezas, decepções, humilhações, provocações, perseguições e desprezo. O mundo pensa que é fácil. Só consigo me lembrar de Pessoa: "Falhei em tudo" (Tabacaria).

Deparei-me com o texto abaixo. O que ele me acrescenta? Não sei mais ter esperança. O texto poderia ter sido escrito por mim - são as palavras que meus lábios vertem e hoje estou com vontade de lágrimas. O texto poderia ter sido escrito por mim - e eu quero novamente aprender a ter esperança.
(Dáuvanny Costa)

˝Eu sempre terei esperança˝(Salmo 71.14)
Não é qualquer um que tem experiência suficiente para declarar como o salmista: ˝Eu sempre terei esperança˝. Não é fácil ter esperança se não há motivo para ter esperança, senão a promessa às vezes longínqua e às vezes não muito precisa da parte de Deus. Não é fácil ter esperança se o problema é enorme, crescente, complexo e já vem de longa data. Não é fácil ter esperança se o elemento complicador são pessoas sem afeto, sem sabedoria, sem interesse. Não é fácil ter esperança se o passado é como o presente e o presente é como o passado, e tudo continua sempre na mesma. Não é fácil ter esperança se a medicina nada mais pode fazer, se a morte já está próxima, se a morte já chegou, se a morte já se foi levando nos braços o ente querido.

Não é fácil ter esperança se o túnel é sem saída, se não há nenhuma luz acesa, se não há nenhum farol junto aos rochedos, se não há nenhuma estrela no céu. A despeito de tudo, o autor do Salmo 71 quer ter esperança, não abre mão da esperança e garante que vai conseguir: ˝Eu sempre terei esperança˝. Naturalmente ele aprendeu com o velho Abraão a fabulosa arte de ter esperança contra toda a esperança (Romanos 4.18). De colocar a fé acima do raciocínio, o invisível acima do visível, o possível acima do impossível, a certeza acima da expectativa, o fato acima das emoções e o mundo vindouro acima do mundo presente.
(Elben M. Lenz César)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Não desisto

"Acho que estou ficando velho. Ainda uso as conjunções, admito a existência do a-bê-cê e obedeço à gramática". (Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 29 de setembro de 2007

Não preciso de defesa

Recentemente recebi comentários acerca de meu modo de escrever. Comentários irônicos e agressivos. Interessou-me, sobretudo, porque nunca imaginei que dar atenção à gramática pudesse ser ofensivo aos meus destinatários. Isso se chama educação.
Procuro, obviamente, não usar uma linguagem rebuscada ou desnecessária, mas cubro o léxico português de carinho. Isso se chama estilo.
A situação supracitada surpreendeu-me. Não era algo que esperasse, no entanto, fiquei contente. Gosto de me sentir acima do nível da mediocridade. Isso se chama esperança.
Quanto aos meus posicionamentos teológicos manifestados no blog - ou fora dele: Graças a Deus ninguém comete crime por pensar. E eu penso.
Certamente, parafraseando Almeida Garrett, qualquer escreverá melhor que eu, poucos o farão com tanta alma. Isso se chama fé.
(Dáuvanny Costa)

Resistindo às mesmices

"Aconselho-te, pois, paciente leitor, a comprar um bilhete inteiro da próxima extração. Compra-o e rasga-o em pedacinhos. E lança-os aos quatro ventos do Destino. Verás o que é a sensação, verás como sacodes a alma dessa medíocre mesmice de sempre, e verás como vibras, como vives a vida!"...
(Mário Quintana)

A dúvida que corrói

"Disseram-me que Deus me ama, e ainda assim a escuridão, o frio e o vazio são tão grandes que nada toca minha alma. Terei eu errado ao me entregar cegamente ao chamado do sagrado coração?"
(Teresa de Calcutá)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Livros - O Monge e o Executivo

São tecidos os melhores comentários para o livro 'o monge e o executivo'; naturalmente insaciável por conhecimento, não pude me furtar à curiosidade de lê-lo para tecer minhas próprias considerações.
O livro não é de todo ruim, muito embora deixe a desejar e a manchete seja muito melhor que a notícia. O autor repisa assuntos já tratados; visita e revisita a Bíblia numa obra pueril. O melhor da obra são as frases que James Hunter empresta de outros. Interessou-me muito a ênfase que o autor dá ao amor como fator de liderança. “Servir para liderar”, disse Aquiles em Tróia, e essa é a grande lição do livro. O ponto forte do livro é o capítulo 7 – último, aliás. 
Sintetizando, sejamos símplices como os monges e prudentes como os executivos... (paráfrase livre de Mt. 10.16).
No mais, o desejo de Jesus não era ser um líder. Nunca foi. Não aqui.
James Hunter não é grande escritor, apenas transmissor de idéias; notável mesmo é o livro ter ganho tanta repercussão.
(Dáuvanny Costa)

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Ilusões de Florbela

"Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e, como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos, despedaçou-se o meu para sempre. Podiam hoje sentar-me num trono, canonizar-me, dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade, que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje. Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor; falta-me tudo o que eu tinha dantes e que eu nem sei dizer-te o que era... É a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes".
(Florbela Espanca)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Minha fé não cansa mas se cansa

Cansei dos escritos de meu tempo.
Cansei da pseudo-intelectualidade, do vazio dos discursos, das opiniões sem fundamento, da leviandade e da vileza das sustentações.
Cansei também da falta de beleza nos escritos de meu tempo. Pior: cansei dos poetas, dos profetas e dos religiosos.
Cansei de agora. Cansei de antes. Cansei de tudo.
Cansei dos pregadores de hoje – com irrefutável razão, todavia, cansei também dos pregadores de ontem, das opiniões dos outros, do Cristianismo maculado e do esquecimento da Bíblia.
Cansei das teorias, das fórmulas, dos decretos e das máximas. Cansei, principalmente, dos chavões religiosos.
Cansei dos Macedo, dos Soares, dos Lucados, dos Sobel, dos Marcelos – e não se adiante em me chamar pretensiosa, mas cansei também dos Gondins, dos Caios, dos Luteros, dos Calvinos, dos Yanceys, dos Chucks, dos Lewis. Cansei de mim. Reconheço, admito e confesso tê-los lido e aprendido com estes. Cada um, à sua maneira, têm palavras que encantam.
Hoje, todavia, eu desejo mais, eu anelo mais, eu aspiro mais. Por mais contraproducente que possa parecer, aspiro o simples: a mensagem da cruz. Quero-a de volta. Quero voltar a ler a Bíblia com a simplicidade dos primeiros tempos, com a inocência das primeiras letras. Quero voltar a ter olhos de criança.

Cansei das certezas dos outros. Quero que a Bíblia me inunde – até o transbordamento.
Quero me livrar da religião. Quero Cristo em mim. Quero aquele evangelho de outrora. Sem promessas ou expectativas. Hoje, quando meus planos se frustram, minha fé tenta deixar-me. Ela me pede 'um tempo'. Meu espírito angustiado não tem forças para argumentar; a fé, então, me diz que não pode permanecer em espaço tão congestionado de dúvidas. As dúvidas, de tão densas, se tornam quase tangíveis. Peço à ela para permanecer, cito Agostinho, Lewis, Barth e Bonhoeffer. Leio, para ela, Spurgeon. Não convenço-a. Não convenço-me. Não sou eu.
Ele quer a mim, não quer o Agostinho que li. O conhecimento alheio, por mais célebre e profundo que seja, não foi gerado em mim. Não nasceu de mim. Preciso das minhas certezas. A fé, ao notar minha procura, se arrisca a ficar um pouco mais e tentar conviver com as dúvidas. Brado, como desesperada, que não a quero, que ela pode partir; mas pobre de mim (!), ela sabe coisas que não sei – na verdade, não sei nada – e ela me fere como um punhal, mas seu desejo, estou certa, é curar-me. Não entendo-a. Não entendo o Mestre por tantas vezes usar de um tratamento tão duro com uma criatura tão frágil como eu, tão cheia de incertezas e obscuridades – tão pequena. Talvez eu não o entenda porque cansei.

Hoje minha alma quer somente descansar e recuperar as forças para buscar as minhas certezas. Que, espero, sejam as dEle.
(Dáuvanny Costa)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

terça-feira, 31 de julho de 2007

Verdades

[...] Então, olhei no fundo dos seus olhos doces e esperançosos e disse: 'sou uma mulher de muitas dores pelas feridas que sangram, por isso vivo intensamente cada minuto de prazer...'
(Dáuvanny Costa)

sábado, 7 de julho de 2007

Prezados Idiotas da Galácia

..."Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho. O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo: Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema. Por que, persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Deus" (Gálatas 1.6-10).

"Anátema" pode ser traduzido por "amaldiçoado". Paulo, dono de personalidade colérica e zeloso da fé, não receava o emprego das palavras. O texto supra foi escrito/ditado aos Gálatas: "Ó gálatas insensatos", ele bradava. Bem poderia ter sido escrito em nossos tempos, com outras vestimentas: "Ó brasileiros insensatos" ou "Ó crentes insensatos", talvez. Insensatos por transformarem pregações em mega eventos; igrejas em mega templos e pastores em mega empresários.
Descreio da igreja atual, dos discursos vazios que despedem os ouvintes mais vazios ainda. Em lugar de abrigo, são centros de auto-ajuda, com a função precípua de fazer com que os ouvintes sintam mais culpa pela falta de oferta pecuniária que pela falta de caráter.
Quem inventou outro evangelho, deturpando o evangelho da graça? Um evangelho novo que lota templos, mas esvazia corações. A adoração ao Pai cede lugar à adoração a si mesmo: boa mesa, boa casa e boa vida.
Prezados Idiotas da Galácia, que exultam com o mercadejo da fé, que se calam diante do mercado do logro e do cinismo, que caçam bênçãos enquanto fogem do Abençoador. Que pregam a si mesmos, negligenciando o Deus pregado. Quem os fez tão céticos? Crendo apenas nas efemeridades desse mundo? Sua fé é vã.
Que coisa, como escreveu Vieira, é a conversão de uma alma senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo?
As palavras bastam para ouvidos néscios; para falar aos corações são necessárias obras.
(Dáuvanny Costa)

Espíritos desarmados

Vivemos, com efeito, dias um tanto bárbaros. Aposto, e não os perderei, os dois mindinhos como os que defendem isso que chamam de políticas de redução de danos eram favoráveis, por exemplo, à proibição da venda de armas legais. Uma das desgraças do país é esse progressismo de fachada. As armas que matam, como sabemos, são as ilegais. Proibir a sua venda corresponderia a conceder num bem abstrato que, na prática, nos afastaria, como provam o Complexo do Alemão ou o terrorismo do PCC, de uma resposta para o problema real.
(Reinaldo Azevedo)

sábado, 9 de junho de 2007

Carta de uma mãe à outra

"Hoje vi seu enérgico protesto diante das câmeras de televisão contra a transferência do seu filho, menor infrator, das dependências da FEBEM em São Paulo para outra dependência da FEBEM no interior do Estado.Vi você se queixando da distância que agora a separa do seu filho, das dificuldades e das despesas que passou a ter para visitá-lo, bem como de outros inconvenientes decorrentes daquela transferência. Vi também toda a cobertura que a mídia deu para o fato, assim como vi que não só você, mas igualmente outras mães na mesma situação, contam com o apoio de comissões, pastorais, órgãos e entidades de defesa de direitos humanos. Eu também sou mãe e bem posso compreender o seu protesto. Quero com ele fazer coro. Enorme é a distância que me separa do meu filho. Trabalhando e ganhando pouco, idênticas são as dificuldades e as despesas que tenho para visitá-lo. Com muito sacrifício, só posso fazê-lo aos domingos porque labuto, inclusive aos sábados, para auxiliar no sustento e educação do resto da família. Felizmente conto com o meu companheiro, que desempenha importante papel de amigo e conselheiro espiritual. Se você ainda não sabe, sou a mãe daquele jovem que o seu filho matou estupidamente num assalto a uma videolocadora, onde ele, meu filho, trabalhava durante o dia para pagar os estudos à noite. No próximo domingo, quando você estiver abraçando, beijando e fazendo carícias no seu filho, eu estarei visitando o meu e depositando flores no seu humilde túmulo, num cemitério da periferia de São Paulo... Ah! Ia me esquecendo: e também ganhando pouco e sustentando a casa, pode ficar tranquila,viu? Que eu estarei pagando de novo, o colchão que seu querido filho queimou lá na última rebelião da Febem."
(Romeu Prisco)

terça-feira, 15 de maio de 2007

Suspeitas

A linguagem é um sistema de equívocos.
(Dáuvanny Costa)

Sempre outono

Minha vida é outono,
folhas caídas, vento, tristeza úmida de tempo,
varredura de sonhos em folhas amontoadas;
primavera fugidia, harmonia escura de claridade,
que estação...
que está...
são folhas levadas.
Minha vida é outono.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Páscoa

..."Come chocolates, pequena,
come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida."
(Fernando Pessoa in Tabacaria)

[...] E eu, que me perco nas letras e mal conheço as palavras, desejaria apenas me converter - transmudando o poema de Pessoa - com a mesma verdade com que o mundo come chocolates.
(Dáuvanny Costa)

segunda-feira, 26 de março de 2007

Até Quando?!

Há dores que não podem ser superadas.
Há dores físicas que machucam o corpo. Há outras que ferem a alma. Não há medicamentos que providenciem cura; não há chás, xaropes ou poções mágicas para aliviar o peso sobre os ombros; o cansaço mental; as saudades que perfuram o coração quebrando-o em pedaços incontáveis como uma britadeira cruel; a espera; a ausência; as noites de insônia; a agonia disfarçada; o sorriso forçado do cotidiano; as perguntas sem respostas. Essa dor vaza em oceanos de lágrimas regando incertezas.
Até quando?!... é o grito desesperado que rasga nossas gargantas.
Até quando?... é o gemido que nossos lábios balbuciam.
Até quando se contabilizarão amanhãs não vividos?
Há dores silenciosas que se escondem pelos recônditos de nosso ser nos fazendo mentir ao coração covarde. Há outras que explodem, vulcânicas; derretendo-nos.
Essas são as dores em mim. Ambas. Dor da Beth Metynoski, da Lenice Café, do Jorge Damus, da Elizabeth Andrade, dos pais do João Hélio, da Rachel Costa, da Ieda Vale, da Maria Lopes, dor da esposa, da mãe ou da filha que moram na casa da esquina e passam por mim com olhos baixos e tristes sem eu nunca ter ousado perguntar o motivo. Dor de perdas estúpidas, de indignação, de impotência.
Dor pela banalidade da violência, pelo descaso com a vida humana - com a vida amada, pela imoralidade, pela falta de valores.
Dor pelo que está sendo e pelo que teria sido, pela corrupção e pela corruptibilidade, por ser um grão de areia tão pequeno, bem menor que o mar de lágrimas.
Dor pelas crianças que partem - e pelas que nascem; pelas mães à beira das sepulturas de quem elas ensinaram a andar; dor pelos filhos sem pais e sem respostas; dor pelas jovens esposas que não conjugam o verbo amar no passado.
Até quando assistiremos atônitos e silentes essas agressões à nossa humanidade?!
Até quando a indignação das massas só durará 24 horas?!
Como é concebível que bandidos de mira precisa, torturadores, estupradores, cruéis destruidores de vida, sejam considerados e tratados como crianças? Como é concebível que o Estado tutele com mais zelo os algozes que as vítimas? Como leis que supostamente deveriam proteger a sociedade a exponham ao ridículo, à insegurança e ao medo, sendo tão lenientes e inconseqüentes?
Procurei essas respostas. Ei-las. Em minha visão:
Nosso consentimento.
Consentimos na corrupção política, na venalidade judiciária, no 'jeitinho brasileiro', no político desonesto, na venda de votos, nas leis promulgadas, nos preços cobrados, nas grades nas janelas, nos alarmes nos carros, nas crianças em apartamentos, na nossa falta de poder.
Consentimos nos juros bancários, na falta de emprego, nos impostos exorbitantes, na falta de ética, nas mentiras comunistas, nos movimentos humanistas e estúpidos, no desrespeito às Polícias, no uso de drogas.
Consentimos com os programas de tv que fazem apologia a tudo - menos à moral, com a desigualdade, com as notícias dos jornais, com as filas nos hospitais, com a escola sem mestres, com a criança sem infância, com a fome dos índios, com a seca do Nordeste, com a farra do boi, com o desmatamento da Amazônia, com o roubo na casa ao lado.
Somos coniventes. Não agimos ou reagimos. Letargia coletiva que se apodera do povo, enquanto o sangue dos justos rega essa terra impura. O que fazer para mudar? Apontamos problemas, mas não soluções. 
Solução é o fim do "alto clero político".
Disse "alto clero", quando deveria ter dito "baixo meretrício". E nem preciso explicar o porquê.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 4 de março de 2007

Preocupação...

"O que me preocupa,
não é o grito dos violentos.
É o silêncio dos bons."


Martin Luther King

Utopia X Justiça

Utopia .... Não posso pensar em utopia sem lembrar o caput do artigo 5º da Constituição Federal: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:" ...
OMISSIS


Motivos para minha lembrança (do artigo 5º):

1) O País é um aglomerado de desigualdades de toda monta em que os que procuram os tribunais também são tratados desigualmente;
2) Garantir a segurança numa terra de ninguém é uma falácia sem tamanho;
3) Garantir a vida é uma audaciosa demagogia em um país que não leva a sério suas leis;
4) Garantir a vida também traz intrínseca a garantia à saúde - e eis que esta agoniza em praça pública;
5) Todas as demais 'inviolabilidades' seguem o mesmo caminho. PROCLAMAÇÃO. Garantia MESMO que é bom, NADA.
Infelizmente a justiça é uma utopia, mas a utopia, no fundo, é um fundamento da esperança. Sem esperança não passamos de um amontoado de células com uma vida sem sentido. Eduardo Galeano é brilhante (ao menos no texto que cito) quando compara a utopia ao horizonte: "a utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ele se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".
É possível o acesso à uma "ordem jurídica". Difícil, mas possível. À JUSTIÇA, lamento, não vejo possibilidade. Correção NÃO É justiça. Senão vejamos: O que é acesso à justiça? Conseguir ajuizar uma ação? Ou talvez recorrer ao Judiciário em posição de igualdade com os contendores e obter um provimento equilibrado? Uma decisão favorável, talvez? A isso chamo "ordem jurídica". E até mesmo para se conseguir isso são necessários alguns consertos:
1) A movimentação da máquina judiciária é INEXPLICAVELMENTE onerosa. Educação, por exemplo, que é atribuição do Executivo, custa mais barato para o particular do que o ingresso em juízo para a realização de uma simples cobrança: custas, honorários advocatícios e periciais, despesas etc.. Esses exemplos financeiros são apenas alguns dos obstáculos que as pessoas financeiramente pobres enfrentam ao tentar alcançar a "ordem jurídica".
2) Outro problema ao acesso é de cunho social; ainda que seja nas camadas mais humildes que ocorram os maiores índices de atentados aos direitos subjetivos dos cidadãos, poucos recorrem ao Judiciário. Talvez por desconhecerem seus direitos. Talvez por não crerem. Talvez.
Citei apenas dois obstáculos (há vários) que devem ser quebrados. Educando o povo acerca de seus direitos (precipuamente cidadania) seria um começo.
Enfim...eu sonho minha UTOPIA.
(Dáuvanny Costa)

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Subscrevo

Aquele "menor", bem maior do que o menino João, cujo corpo ele ajudou a espalhar pelas avenidas do Rio, vai ficar três anos internado. E depois será solto entre os meninos-João, por quem não se rezam missas de apelo social. Resta só a dor da família: privada, sem importância, sem-ONG, "sem ar, sem luz, sem razão". Sobre o assassino, há de se derramar a baba redentora rousseauniana: ele nasceu bom; foram os insensíveis da classe média, à qual pertencia o menino João, que o tornaram um facínora. Simbolicamente, a culpa é de quem morre. Também notei que os jornalistas ficaram um tanto revoltados com a polícia, que obrigou os bandidos a mostrar o rosto. Não há dúvida: terrível ameaça à privacidade. Era só o que faltava: trucidar o menino João e ainda ser obrigado a expor a cara... Que país é este? Já não se pode mais nem arrastar uma criança num automóvel e permanecer no anonimato? Sabem do que morreu o menino João? De um ataque virulento de progressismo. Para o menino João, não tem ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), não. Não tem ONG, não. Não tem música do Chico, não. O menino João já nasceu sem perdão. É o guri dos sem-Chico Buarque.
(Reinaldo Azevedo)

IGREJA (Deus não permita mais!)

Vi santos impassíveis diante da dor e do desespero de seus irmãos;
Vi santos discutindo por um molho de chaves e uma torneira, enquanto seus irmãos experimentavam a tristeza e o desalento - sim, eu vi!
Vi santos colocarem feixes de lenha no fardo de um irmão desanimado;
Vi santos desprezarem um irmão porque estavam num terno de griffe;
Vi santos comerciarem a religião no mercado do logro e do engano;
Vi santos mudarem sua personalidade porque mudaram de carro;
Vi santos proibirem os fiéis de se levantarem até para beber água na casa do Pai;
Vi santos mentirem;
Vi santos julgarem;
Condenarem;
Criticarem;
Vi santos desafiando a Deus, como se fossem os senhores dEle;
Vi santos negando auxílio;
Amor;
Amparo;
Compaixão;
Vi santos pregarem uma coisa e viverem outra;
Vi santos diante da oportunidade de serem úteis, virarem as costas;
Vi santos entronizando religião e superstição no lugar de Deus;
Vi santos abandonarem seus irmãos quando mais precisavam;
Vi santos prósperos meditarem dias se doariam uma cesta básica;
Vi santos negarem ajuda financeira quando tinham muito;
Vi santos dizerem a um irmão ferido que se esqueciam de orar por ele;
Vi santos zombando da dor;
Vi santos acusando um ser ferido;
Vi santos gordos;
Magros;
De barro;
De lata;
Vi santos tratarem alguém de acordo com as posses;
Vi santos duros e cruéis;
Vi santos saudarem a uns e a outros não;
Vi santos adorando ídolos;
Vi santos glorificando a Deus e esquecendo de amar seus irmãos;
Vi santos discursarem sobre dinheiro e poder, mas não falarem sobre Deus;
Vi santos esnobarem seus pais;
Vi santos satisfeitos com esse mundo;
Vi santos atônitos diante da perspectiva de perderem a vida;
Vi santos de lata;
De barro;
Vi esse barro fazer ‘birra’;
Só não vi o desejo de ser queimado
Para virar arte.
(Dáuvanny Costa)

Das coisas que não suporto

1) Perguntas pessoais;
2) Sentir-me pressionada;
3) Completarem minhas frases;
4) Perguntas óbvias;
5) Expressões fora de propósito;
6) Tocarem-me sem permissão;
7) Vãs repetições, vãs repetições, vãs repetições;
8) Contestações às minhas crenças;
9) Mercadejo da fé;
10) Cobranças – de qualquer espécie;
11) Tentativas de impressionar-me;
12) Filosofia de botequim;
13) Decretações em nome de Deus;
14) Fé barata;
15) Indecisões;
16) Falta de iniciativa;
17) Advogados criminalistas;
18) Políticos corruptos;
19) Políticos;
20) Invasão de privacidade;
21) Escreverem ou pronunciarem errado o meu nome;
22) Números – de qualquer espécie;
23) Pregarem a si mesmos e não ao Deus pregado;
24) Morosidade;
25) Inércia;
26) Demonstração falsa da inteligência que não se têm;
27) Insinuações ou indiretas – em suma, falta de objetividade;
28) Erros gramaticais;
29) Usarem meus textos sem citação da fonte;
30) Erros de ortoepia;
31) Falta de tato;
32) Críticas fora de propósito;
33) Covardia;
34) Pusilanimidade;
35) Acusações injustas;
36) Falta de objetividade – de novo;
37) Retorno a assuntos já resolvidos;
38) Incapacidade em se admitir erros;
39) Questionarem minhas certezas;
40) Gente que fala muito e não diz nada;
41) Gente que fala muito;
42) Crime e violência;
43) Humanistas;
44) Apelações religiosas;
45) Ressentimentos;
46) Hipocrisia;
47) Shows gospel;
48) Intimidade gratuita;
49) Fofoca;
50) Curiosidade pela vida alheia;
51) Banalização de milagres;
52) Reclamarem do volume do som do meu carro;
53) Tocarem meu cabelo;
55) Pré-julgamentos;
55) Indolência;
56) Desrespeito;
57) Imposição de opiniões;
58) Inépcia;
59) “Atoísmo”;
60) Esperar;
61) Indiscrição;
62) Música ruim;
63) Gente que não discerne anel de aliança;
64) Raciocínio lento;
65) Desocupados;
66) B a r u l h o;
67) Cantada barata (e burra);
68) Histeria;
69) Vadiagem;
70) Comunistas.

Há muitas outras coisas que não suporto, que não me alegram, que não fazem sentido. É uma lista básica, mas não claustra (numerus apertus) - e não está aberta à concessões. Em alguns momentos, confesso, não sou muito tolerante, embora tente.
Lista incorruptível. Mas não posso negar: muitas vezes eu relevo. O que não suporto mesmo é estar em mim.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 7 de janeiro de 2007

EU e Florbela

"Eu não sou boa nem quero sê-lo,
contento-me em desprezar quase todos, odiar alguns, estimar raros e amar um".
(Florbela Espanca)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Calvinismo

Se eu fosse Deus

Se eu fosse Deus... um dia apenas...
faria sorrir as crianças, sem afazeres ou preocupações,
as ocuparia com brincadeiras de sua idade.
Se eu fosse Deus...
alimentaria todos os famintos,
consolaria os tristes
e devolveria, a quem ama, os amores que partiram.
Não permitiria que uma mãe enterrasse seu filho,
não conceberia amanhãs não vividos a jovens viúvos,
eliminaria todas as guerras
e não deixaria que usassem meu nome em vão.
Por apenas um dia...
Proclamaria a tão sonhada paz,
incendearia os presídios - lotados -
e haveria um anjo em cada casa.
Por apenas um dia...
a África seria alegre e a alma dos brancos seria negra.
Por apenas um dia...
as lágrimas de dor seriam proibidas
e os pássaros cantariam o dia inteiro.
Se eu fosse Deus...
Interferiria na Terra, castigando e premiando
consoante meu senso de justiça.
Mulheres não seriam violentadas, apenas amadas.
Crianças não seriam espancadas e abandonadas.
Mães não seriam jamais humilhadas.
Se eu fosse Deus...
os homens de boa vontade: médicos, advogados,
professores, policiais, bombeiros, agricultores,
seriam respeitados e honrados.
Ocorre-me, porém, que jamais poderia sê-lO,
porque não daria minha vida
para salvar homens maus.
Eu advogo, mas não me envolvo;
Aconselho, mas não me entrego;
Ajudo, mas não renuncio.
Sonhos desvairados!
Alma blasfema!
A dor cega-me.
Acaso não sei que "certo príncipe" sondou sentar-se no trono de Deus?!
Julgo-me justa - mais que Ele! - mas não morreria - como Ele fez -
por uma humanidade corrompida.
Alma blasfema!
"Senhor! Ajuda-me em minha incredulidade!"
Permita-me não parar de crer.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 31 de dezembro de 2006

Novo Ano, Dia comum

Hoje, para muitos, é dia de rever conceitos e valores, fazer uma retrospectiva do ano que termina, pensar nos projetos futuros, fazer promessas e decretar vitórias. É um dia de festa e alegria em família - para muitos.
Para outros - tantos outros - é dia de lamentações. Lamentar pelo ano perdido e desejar que o ano infante traga melhores dias.
Para outros, ainda, é um dia comum. Um dia que chegará ao fim às 23:59 horas levando consigo o ano sobre as costas. É apenas um ano que passa, como as horas, os dias, os meses. Tempo após tempo.
Para mim é assim, dia comum. Nada de promessas. Nada de balanços porque nossa vida não é uma contabilidade tampouco um parque infantil. Um ano comum termina e outro se inicia: ciclo da vida e não escolha nossa.
Ganhei amigos no ano que termina, amigos que desejo manter no decorrer do ano que se inicia e dos anos seguintes. Amigos de quem aprendi a gostar e a respeitar, amigos de quem sinto saudades quando ausentes. Alguns conheço apenas pelos escritos, trocamos correspondências como amigos de infância; alguns conheço apenas pela voz, mas não há distinções nos sentimentos. Dos que são presentes, alguns se tornaram mais íntimos, a amizade se solidificou ganhando ares de eternidade. Um brinde a todos! Aos de perto e aos de longe, aos de sempre e aos de "às vezes", aos que olho nos olhos e aos que olho nos corações.
Alguns se afastaram, outros se perderam. Por motivos fúteis. Faz-me pensar em como nós humanos somos desatentos e desinteressados. Perdemos as pessoas que gostamos porque somos egoístas, mais preocupados em mostrar nossas próprias opiniões, em provar que estamos certos, do que em amar e demonstrar nosso amor. Pisamos nas pessoas apenas para mostrar que temos razão. E as pessoas se afastam e nos afastam delas.
Diante desse quadro, que posso desejar para um novo ano? Ora! O que desejo a cada novo mês, nova semana e novo dia: Mais tolerância entre os homens, mais amor entre os povos, mais paz entre os cristãos. Para um novo ano não desejo nada novo. Apenas que os homens despertem para novas realidades, unam-se em suas fraquezas e incertezas, sejam menos ríspidos em suas atitudes, aprendam a perdoar, a não serem amargurados, a não terem sentimentos mesquinhos uns pelos outros. 
Desejo que as pessoas falem menos e façam mais. Farei minha parte. Plantarei as sementes. Não desejarei nada que eu própria não possa fazer.
E que venha um novo ano de trabalho.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 17 de dezembro de 2006

Por que se escreve?

"A grande maioria escreve porque busca fama e dinheiro, por distração, porque simplesmente tem facilidade, porque não resiste à vaidade de ver o seu nome em letras de forma.
Restam, então, os poucos que contam: aqueles que sentem a necessidade obscura mas obsessiva de dar testemunho de seu drama, de sua infelicidade, de sua solidão. (...) São homens que não escrevem com facilidade, mas com dilaceramento. São indivíduos na contramão, terroristas ou foras-da-lei".
(Ernesto Sabato)

Escrever

Crise de abstinência.