sábado, 18 de outubro de 2008

SAL QUE NÃO SALGA

Hoje acordei com o desejo desatinado de resgatar a igreja. Estou ciente de que é um desejo deveras arrogante; talvez insano: "...as muitas letras te fazem delirar", palavras lançadas ao apóstolo Paulo por Festo, governador da Judéia (60-62), relatadas em At. 26.24.
Não sou nenhuma "enviada especial" (isso é coisa de repórter), estou "apenas" indignada e não posso e não quero mais assistir a esses espetáculos de degradação moral, a essas tolices, a esses disparates. Não quero cruzar os braços e fingir que nada acontece.
Sim, estou inquieta, uma inquietude que quer agir, que quer mudar conceitos e transformar vidas. Uma inquietude que quer SALGAR. Não aceito mais essa venalidade, essas aberrações, esse estado acrítico da igreja. Não importa ser crucificada, o que não desejo é ser pisada como sal inútil.
O legado da igreja está sendo manchado. O Evangelho está sendo descaracterizado. A fé está sendo negligenciada por valores menores. Os pregadores estão corrompendo e sendo corrompidos, e quanto a nós, bem, resta-nos a culpa de nossa omissão.
Alguns chamar-me-ão demagoga, outros ainda me julgarão soberba e insolente e há aqueles que comungarão de meus desassossegos. Chamar-me-ão de muitas coisas, menos de hipócrita. Desespero-me da igreja. Quisera assim não fosse, todavia, ora ela vive uma busca frenética por superficialidades que me arrancaria de minha zona de conforto (se eu tivesse alguma) e hoje essa fúria me consome e me exalta. Talvez, juntos, possamos encontrar o caminho de volta ao Caminho.
Não foi para isso que eles [todos] morreram.
(Dáuvanny Costa)

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Bem-aventurança

"Os que acreditam no impossível, são os mais felizes"
(Eugenie de Guerin)

A tristeza...

"No céu, também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo?
Deus se pergunta e se responde: Não sei.
Os anjos olham-no com reprovação,
as plumas caem.
Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor caem,
são plumas.
Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada
ou seja, a tristeza de Deus".
(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Minha humanidade

Não basta que sejamos honestos e íntegros.
Não basta que sejamos perseverantes e corajosos.
Não basta que sejamos inteligentes e cultos.
Não basta que sejamos fortes e ousados.
Não basta que sejamos gratos e gentis.
Não basta que sejamos tolerantes e indulgentes.
Não basta que sejamos esforçados e lutadores.
Não basta que sejamos estudiosos e dedicados.
Não basta que sejamos trabalhadores e diligentes.
Não basta que sejamos ávidos por justiça e pacificadores.
Não basta que sejamos bons.
Alguns nos querem santos.

E santos, segundo crêem, não erram.
Não caem.
Não mudam de rota.
Não fazem sexo.
Não mentem.
Não dissimulam.
Não escapam.
Não usam de subterfúgios.
Não buscam os próprios interesses.
Não escondem os sentimentos.
Não choram.
Não contraem dívidas.
Não ignoram.
Não respondem mal.
Não têm ressentimento.
Não se aborrecem.
Não suspeitam mal.
Não são sofisticados.

Rogo a Deus para retirar a venda dos homens que nos querem santos. Santos com esse tipo de santidade ilusória; perfeição irrestrita e destituição de humanidade.
Que crêem em suas próprias mentiras e nos acusam de terem crido nas nossas.
Que plantam sementes de incertezas e colhem frutos de desespero.
Que enxugam lágrimas e em seguida fazem-nas novamente cair.
Que gritam quando esperamos o silêncio.
Rogo a Deus para me guardar dos homens que nos querem santos.
Ardo em minhas próprias concupiscências.
Sorvo o veneno agridoce de minha volúpia.
Invento histórias para corromper-me.
Maculo-me na lama dos meus erros.
Entrego-me a prazeres efêmeros.
Permito que a dor me subjuge e dilacere.
A mensagem é santa. Não a emitente.
A mensagem é santa. Não eu.
(Dáuvanny Costa)

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Os desagradáveis

"Todas as pessoas cruéis descrevem-se como modelos de sinceridade".
(Tennessee Williams)

Se a verdade não for ELE

“Esse símbolo é muito simples: acreditar que não há nada mais belo, mais profundo, mais simpático, mais racional, mais corajoso e perfeito que Cristo, e não só não há como eu ainda afirmo com um amor cioso que não pode haver. Além disso, se alguém me demonstrasse que Cristo está fora da verdade e se realmente a verdade estivesse fora de Cristo, melhor para mim seria querer ficar com Cristo do que com a verdade”.
(Dostoiévski in Carta de 20/02/1854 à Fonvízina).

domingo, 12 de outubro de 2008

O teatro

"Graças, chistes e facécias, que movem o riso, são para o tablado da Comédia, e não para o Púlpito".
(Manuel Bernardes in Os últimos fins do homem)

sábado, 11 de outubro de 2008

Ouvindo - Chet Baker


Porque você é GRANDE


GI, GUI, MANU, MI, DUDA


Era para ser uma crônica grave. Séria. Preclara. Tomei da folha imaculadamente branca (a mais branca que encontrei) e da caneta azul preferida. Sentei-me à mesa, cautelosa, com o ar grave, semblante calmo, mas sério. Segurei a xícara de porcelana com o perfumado café da Fazenda Águas Claras e garimpei lembranças na memória. Porém, nada de sério encontrava nas escavações. Em vez disso; risos, mãos meladas, pedidos exigentes de “McDonald’s” e piqueniques, cabelos soltos rolando num vento manso.

Vez ou outra acalentava na mente rostinhos como de beijinhos de coco com açúcar cristal, rostinhos brancos e corados, iluminados por grandes e brilhantes olhinhos verdes. Havia vezes em que os rostinhos pareciam deliciosos cajuzinhos, rostinhos morenos com lindos olhinhos cor de avelã. Ah... Que doces pensamentos... E cada um desses docinhos marejava meus olhos de saudade. Brotavam lágrimas que faziam meu coração transbordar numa ternura que não sei exprimir. Nem Shakespeare saberia. Nem Saint-Exupéry em seu “Pequeno Príncipe”.
Era para ser uma crônica séria. Com o ar responsável de um Beethoven a reger a Nona Sinfonia. Era para ser, mas não foi.
Logo me desfiz do ar sério que levei para a mesa. Passei a mão na xícara e gritei: “quero um chocolate quente”; enquanto ria um riso alto que não sei rir mais. Olhei aquela folha branca, imaculadamente branca, e comecei a desenhar coqueiros (meu desenho preferido ou a única coisa que sei desenhar) em todo o seu corpo. Enquanto desenhava, pude me lembrar de sorrisos que alegravam meu coração, de abraços que abraçavam minha alma e de beijos carinhosos como os dos colibris em suas flores.
E por todo lado eu via elefantes cor-de-rosa (ou cores de rosas? pergunto-me, escapando à severidade da gramática), girafinhas azuis com pescoços tão grandes que podiam morder a lua, golfinhos saltando histéricos de alegria, e pensei em crianças... Lindas e doces crianças... Pensei no quanto as amo e no quanto sou, por elas, amada. Perguntei-me, então, (fazendo de novo o ar sério) como é que em corações tão pequeninos pode caber um amor tão grande?
Dei-me conta, nessa conta de quem ama mais, de que estou sendo chata, adulta, gente grande. Nesse momento, tiro os óculos, os sapatos, os brinquedos das caixas e todos olham espantados enquanto se perguntam o que “deu em mim”...
Posso dizer que li num livro que não devo querer crescer, pois os adultos não entendem nada. Posso dizer que no escritório tive um instante louco e mergulhei de cabeça na infância do jardim. Posso dizer, por fim, que esses lampejos todos – da criança em mim – devo a cinco estrelas, a cinco sonhos, a cinco canções que canto no peito meu.
Se você acertar, ganha uma sobremesa.
Pensei em rimar seus nomes, mas não achei nada mais enfadonho. Pensei em dizer que as amo, mas crianças sabem sem precisar ouvir. Pensei em... ah!... chega de pensar! Quero ser criança e amar e amar e amar...
(Dáuvanny Costa, revisto e corrigido)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

VOX CLAMANTIS IN DESERTO

A notícia: Deus: cabo eleitoral. (clique para ler)
Desnecessário falar do que se torna capaz um político em busca do brilho falso do poder. E do que se torna capaz um pastor em busca do brilho entrevisto nas notas dos dízimos.

Voto com Sêneca: "Nihil est homini se ipso vilius"*. O mercado de almas não segue a crise mundial. Ainda se encontram almas bem baratas para mercadejar. Vieira já bradava no Sermão das Tentações: "Aprendamos ao menos do demônio a estimar nossa alma" (Pe. Antônio Vieira), mas nem com o tal alguns conseguem aprender. Que feira de cinismo e logro!...
(Dáuvanny Costa)

* Não há coisa para conosco mais vil que nós mesmos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Peste contagiosa

"Pipocam pelo mundo exemplos de palavras insensatas. A peste é contagiosa. Mas o Troféu Palavroso de 2008 vem para o Brasil, para ele, para Lula, o Magnífico. Falou de tudo um pouco nesta semana, menos do Evito e suas desventuras...
Começou declarando que é contra a lei antifumo, lei sancionada em seu governo. Afirmou que vai continuar a fumar em seu gabinete, pois lá é ele quem manda. Diz ele que está defendendo os direitos dos fumantes. Creio que isso merece uma reflexão profunda. Fumar não é o único vício do homem. O presidente vai defender todos os vícios? Todos, mesmo?
Quarta-feira, 10 de setembro. Data para ficar na História do Brasil pois, nesse dia, pela primeira vez, o presidente da República Federativa do Brasil, habituado a elogiar todo e qualquer aloprado que seja membro da coalizão que o sustenta, elogiou um político acusado pela Polícia Federal de crime muito grave, de exploração da pedofilia. Quero acreditar que o presidente da República, pai e avô, desta vez realmente não soubesse de nada. O contrário seria insuportável.
Segundo o site da ADPF – Associação dos Delegados da Polícia Federal, Adail Pinheiro (sem partido), prefeito de Coari, AM, é o principal suspeito de articular uma quadrilha que foi alvo de operação da Polícia Federal, em maio passado. Em discurso, Lula chamou Adail de “companheiro” e o parabenizou pela administração do município. As denúncias estão sendo investigadas pelo Ministério Público.
Advertido, já em Manaus, de quem elogiara, Lula saiu-se com esta: “Não pergunto a religião de quem me apóia”. Imagina se ele ia dar o braço a torcer, esse herói do sertão!
E partiu para outro palanque, o da abertura da 4ª Feira Internacional da Amazônia, onde discursou: “A gente então ficou de 1980 a 2002, atrofiado, como se estivesse em estado de coma, deitado em uma cama sem lembrar quem éramos, para onde íamos e da onde tínhamos vindo”. Não é sensacional? Quer dizer, ficamos 22 anos em coma, aí veio esse Dom Sebastião de araque e nos acordou? Será que ele nem corado fica ao dizer isso?"
(Ricardo Noblat, aqui)

Viver é lutar

"Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal."
(Machado de Assis)

domingo, 28 de setembro de 2008

Mas eu

"Mas eu, em cuja alma se refletem
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo como ter sede sem ser de água."
(Fernando Pessoa/Álvaro de campos)

Viageiro

"Quem viaja por terras estranhas, vê o que quer e o que não quer".
(João Guimarães Rosa in Sagarana)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O lamento que não deveria ser apenas NOSSO

Infelizmente, para a SSPSP - e possivelmente para as demais unidades da Federação - não passam de números.
Perdas que não podem ser substituídas. E não devem. Não é possível corrigir uma perda. Não há palavras ou ações que possam atenuar tamanha dor. Não é possível. A vida segue, dizem os incautos, e quem perde esboça um sorriso canhestro, sabendo que a vida de quem perde não segue da mesma forma. Estará sempre atrelada ao passado e à perda. A vida segue, dizem os incautos, e quem perde esboça um sorriso canhestro, pensando que para suportar a dor DOS OUTROS, todos têm coragem de sobra.
Homens que desejaram apenas proteger e servir. Vilipendiados. Humilhados. Sujeitos à más condições de trabalho. Recebendo soldos muito aquém do ofício desempenhado. Assassinados. Policiais brasileiros.
Segue a matéria do jornal da Tarde.
(Dáuvanny Costa)

A CADA 4 DIAS, UM PM É ASSASSINADO

Em sete anos, foram 719 casos. Desses, 503 acabaram mortos durante a folga.
No Jardim 9 de Julho, zona leste, pouca gente sabe que L.S.D., de 40 anos, é soldado da Polícia Militar. Ele não volta para a casa fardado. Também evita secar o uniforme no varal do quintal. O medo não existe por acaso. A cada quatro dias, um PM é assassinado em serviço ou em folga no Estado. Foram 719 casos nos últimos sete anos e meio. Só no primeiro semestre deste ano, 8% das vítimas de latrocínio (roubo seguido de morte) eram PMs.
As 719 baixas equivalem a cinco companhias da PM. Desse total, 503 foram mortos em folga e 216 em serviço. O ano de 2004 foi o recordista no número de militares assassinados fora de serviço. Foram 81 vítimas. Já o ano de 2001 liderou as mortes de PMs em serviço. Foram registrados 41 casos.
As 503 mortes de PMs em folga nos últimos sete anos e meio representam 70% das 719 execuções. O sargento Vandir Rodrigues dos Santos, de 34 anos, faz parte dessa estatística. Ele foi morto a tiros durante tentativa de assalto no estacionamento de um banco no Morumbi, zona sul. O crime aconteceu em 1º de fevereiro deste ano.
O policial tinha ido ao banco com um amigo. Três ladrões chegaram ao estacionamento e anunciaram o assalto. Santos sacou a pistola, mas um dos bandidos atirou primeiro, à queima-roupa. Ele levou quatro tiros.
Os criminosos ainda roubaram a pistola calibre 40 do PM. Santos estava de folga. Ele trabalhava no 3º Batalhão de Policiamento de Choque. Ingressou na PM havia 12 anos.
Hélio Teshima Júnior, de 26 anos, também engrossa a lista dos PMs mortos fora de serviço. Ele fazia parte do corpo de segurança do Governo do Estado. Estava de folga na madrugada de 8 de junho deste ano. Para a Polícia Civil, Teshima foi vítima de latrocínio.
O corpo do policial militar foi encontrado dentro de uma Zafira preta, no bairro Ressaca, em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo. Testemunhas ouviram tiros e viram os criminosos fugindo em duas motos. Em seguida, telefonaram para o 190.
Policiais militares chegaram rápido ao local e encontraram a porta do Zafira, do lado do motorista, aberta. Os faróis do veículo estavam acesos. Teshima encontrava-se caído no banco do passageiro. Peritos do Instituto de Criminalística (IC) apuraram que o PM foi atingido na cabeça. A Polícia Civil também descobriu que os criminosos roubaram duas pistolas do militar.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) não divulga, em suas estatísticas trimestrais, os casos de policiais militares ou civis mortos e feridos fora de serviço. Essas ocorrências são somadas aos outros casos de homicídios, latrocínios ou lesões corporais dolosas. A pasta só especifica as mortes e ferimentos de policiais em serviço.
Latrocínios
Segundo levantamento feito pela Corregedoria da Polícia Militar, no primeiro semestre deste ano 12 PMs foram mortos em serviço e outros 24 em folga. Dos militares assassinados em folga, 14 foram vítimas de homicídio e 10 de latrocínio.
Os 10 PMs assassinados durante assalto representam 8% das 129 vítimas de latrocínio no Estado, executadas de janeiro a junho deste ano. Cinco PMs foram mortos na capital e outros cinco no interior. Já entre os 14 PMs vítimas de homicídio, cinco foram mortos em folga na capital, três na Grande São Paulo e seis no interior.
O segundo semestre de 2008 começou violento para os PMs. No último dia 10, dois foram mortos e um ficou ferido em três situações diferentes na capital e Grande São Paulo. Todos estavam de folga.
No Jardim Lourdes, zona leste, o PM Richard Schimith de Assis , de 26 anos, foi executado em seu carro quando voltava da casa de amigos. Os assassinos dispararam mais de 40 tiros. Sete o atingiram. A pistola calibre 40 de Assis foi roubada. Sidney Aparecido Uriel, 45 anos, foi morto a tiros num bar no Jardim Nova América, em Suzano.
(Fonte: Jornal da Tarde, 19 de setembro de 2008, pág. 9A, Josmar Jozino e José Dacauaziliquá )

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Os algemados somos nós

A decisão do Supremo Tribunal Federal de praticamente proibir a polícia de usar algemas em presos provocou forte reação em setores da sociedade vinculados ao combate à corrupção. Segundo o procurador regional da República Alexandre Camanho, as crescentes restrições à atividade policial em nome do Estado de Direito podem abrir caminho para a criação de um "Estado criminal". Coordenador do Núcleo Criminal da Procuradoria Regional da República, em Brasília, Camanho lembra que não existe país desenvolvido que tenha abolido o uso de algemas. Para o procurador, o veto às algemas tem um resultado só: a desautorização da polícia e dos procuradores.
"Fala-se da espetacularização das prisões, mas ninguém fala da espetacularização das falcatruas. Daqui a pouco estarão dizendo: "olha que absurdo, a polícia está prendendo um criminoso!". É preciso parar de tratar criminoso como príncipe. Polícia não é escolta, nem motorista e não dá carona a presos" - disse o procurador em entrevista exclusiva à Jaílton de Carvalho para a Rádio do Moreno.
Fonte: Rádio do Moreno.

Desde que assisti à palestra "Renascimento da Natureza como valor cultural e jurídico", proferida pelo Procurador Regional da República-DF, Alexandre Camanho de Assis, considero-o sempre brilhante. Não à toa. Vale a pena conferir a entrevista. No site.

COFINS: VOLÚPIA ARRECADATÓRIA

"É com profunda decepção que vejo o STF se curvar à sanha arrecadatória do Governo Federal. Matéria sumulada há anos pelo STJ, com decisão agora em sentido totalmente inverso e que causará prejuízos irreparáveis a grande número de profissionais liberais, que acreditaram naquilo que estava pacificado. Sequer a modulação foi deferida, demonstrando a distância que separa esses senhores da realidade do dia a dia dos liberais, que, com a fortuna anual que pagam a título de taxas e impostos, sustentam seus salários. Realmente, lamentável."
(Dr. Paulo Eduardo Blumer Paradeda)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Ouvindo - DESASSOSSEGOS

Meus desassossegos sentam na varanda,
pra matear saudades nesta solidão,
cada por de sol, dói feito uma brasa,
queimando lembranças,
no meu coração.

Vem a noite aos poucos, alumiar o rancho,
com estrelas frias, que se vão depois.
Nada é mais triste, neste mundo louco,
que matear com a ausência, de quem já se foi.

Que desgosto o mate, cevado de mágoas,
pra quem não se basta, pra viver tão só.
A insônia no catre, vara a madrugada,
neste fim de mundo, que nem Deus tem dó.

Meus desassossegos sentam na varanda,
pra matear saudades nesta solidão,
cada por de sol, dói feito uma brasa,
queimando lembranças,
no meu coração.

Então me pergunto neste desatino,
se este é meu destino, ou Deus se enganou?
Todo desencanto para um só campeiro,
que de tanto amor se desconsolou.

(João Chagas Leite)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Alfabeto del mundo

"En vano me demoro deletreando el alfabeto del mundo.
Leo en las piedras un oscuro sollozo,
ecos ahogados en torres y edificios,
indago la tierra por el tacto llena de ríos,
paisajes y colores,
pero al copiarlos siempre me equivoco.
Necesito escribir ciñéndome a una raya sobre el hilo del horizonte.
Dibujar el milagro de esos días que flotan envueltos en la luz
y se desprenden en cantos de pájaros.
Cuando en la calle los hombres que deambulan
de su rencor a su fatiga, cavilando,
se me revelan más que nunca inocentes.
Cuando el tahúr, el pícaro, la adúltera,
los mártires del oro o del amor
son sólo signos que no he leído bien,
que aún no logro anotar en mi cuaderno.
Cuánto quisiera, al menos un instante
que esta plana febril de poesía grabe
en su transparencia cada letra: la o del ladrón,
la t del santo el gótico diptongo del cuerpo y su deseo,
con la misma escritura del mar en las arenas,
la misma cósmica piedad que la vida despliega ante mis ojos".
(Eugenio Montejo)

sábado, 13 de setembro de 2008

Encontrar Sofia e perder os outros

"Um filósofo nunca é capaz de se habituar completamente com este mundo".
(Jostein Gaarder in O Mundo de Sofia)

Posso

"As tempestades, a bruma, a neve, por vezes essas coisas o incomodarão. Pense então em todos os que conheceram isso antes de você e diga assim: 'o que eles fizeram eu também posso fazer'."
(Exupèry in Terra dos Homens)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Livros - Em que crêem os que não crêem?


"...vivemos em uma época que conheceu as mais terríveis manifestações da maldade. Um certo clima de otimismo fácil, segundo o qual as coisas se arranjam mais ou menos sozinhas, não apenas mascara a dramaticidade da presença do mal, mas apaga também o sentido de que a vida moral é luta, combate, tensão agonística; de que a paz só se alcança ao preço do dilaceramento sofrido e superado". (Carlo Maria Martini)

O livro "In cosa crede chi non crede?" , que nasceu com a inauguração da coleção "Veredas", da revista "liberal", foi publicado no Brasil pela Editora Record e traz o diálogo epistolar entre o cardeal Carlo Maria Martini e Umberto Eco. Traz ainda, na segunda parte do livro, escritos de filósofos e jornalistas.
Ao terminar a leitura do livro, folheá-lo, fechá-lo, guardar os marca-textos e os lápis, pensei: Decerto falta profundidade ao estudo. O objetivo do livro, no entanto, não é se aprofundar em questões teológicas de difícil compreensão. É lançar a semente. E esse propósito foi cumprido.
Umberto Eco é coerente.
Martini se abstém de certos assuntos, conquanto abrilhante a discussão com fé e erudição.
Alguns dos céticos perguntam - com sinceridade -, e destarte, já não os chamaria céticos.
Notório, todavia, o ressentimento de alguns dos interventores. Ressentimento por não crerem em algo maior que seus pensamentos. Atitude de quase todos os que sofrem de "atoísmo", creio. Ateus, geralmente, me parecem menos confusos do que quem "crê-em-algo-maior", abstendo-se, terminantemente, de dar-lhe o nome de DEUS.
Quer me parecer que, para esses, o problema todo envolve o nome de Deus, que recebe pseudônimos diversos pela criação de sua obra: força superior, inteligência cósmica, criador universal, mente infinita e afins. Quer me parecer que, para esses, assumir que Deus se chama Deus, princípio supremo, os faria mais papalvos do que admitir que Deus existe, mas não tem nome (é o que fazem).
Shakespeare, inspirado por Platão, declama pelos lábios de Julieta: "Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação teria igual perfume". Outrossim quaestio di nomine não tem qualquer relevância nos momentos dramáticos. Importa mais a ação que seu nome.
Em que crêem os que não crêem?... Pertinente... É necessário crer em algo, nem que seja na vida ou em nós mesmos. Crer que ainda não fizemos tudo o que pode ser feito dentro e fora de nós. 
(Dáuvanny Costa)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Demoniocracia

Lula está incomodado com a transmissão ao vivo das sessões do STF. Ele sugeriu a Gilmar Mendes que os julgamentos sejam EDITADOS e veiculados só trechos considerados mais importantes (PARA QUEM?!). Lula acredita que os ministros aproveitam a transmissão ao vivo para fazer "discursos inflamados".

Eis o espelho da democracia gerida pelo PT.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A esperança que não tenho

"Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia espalha-se por mim todo
como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os deuses fazem viver...
Se em certa altura tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento tivesse dito sim em vez de não,
ou não em vez de sim;
Se em certa conversa tivesse tido as frases que só agora,
no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim".
(Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Eis-me...

"...Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum: e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem.
Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço".
(Romanos 7.18-19)

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Ocorreu-me...

... Iesus autem dixit eis: “Non est propheta sine honore nisi in patria et in domo sua”.
(Mateus 13.57)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

LIBERDADE

"Nunca se pode ser tão livre quanto se deseja, quanto se quer, quanto se teme, quiçá quanto se vive".
(Marguerite Yourcenar in A Obra ao Negro)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Nepotismo e Retórica

Roberto Requião, governador do Paraná, emprega mulher, irmãos e sobrinhos na administração pública em seu estado. Acha, porém, que não pratica nepotismo. Segundo ele, "nepotismo é colocar uma pessoa inadequada no cargo público, parente ou não".
Errado, governador. Nomear cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau inclusive, VIOLA a Constituição federal, conforme expresso na Súmula Vinculante nº 13, do STF. Sua esposa e seus parentes são inadequados ao cargo, justamente por que a nomeação viola a Constituição. É uma ofensa ao princípio da moralidade pública, que Vossa Excelência deveria ser o primeiro a preservar.
Querer convencer os outros a respeito da adequação de parentes na administração pública, como se fosse possível abstrair a relação de parentesco, é um lamentável exercício retórico.
(Renato Pacca, do jornal "O Globo")

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Ateus e o Evangelho da Graça

Ainda não compreendo quando os ateus escrevem sobre Deus. E assumo esta minha insipiência. Por dois motivos:
1) Como alguém que não acredita na existência de Deus pode questioná-lo? Está questionando o nada? É demais que eu imagine ser altamente contraditório alguém atacar ou contra-argumentar com aquilo que, supostamente, não existe?!... Quer me parecer um trabalho intelectivo inútil. Eu, por exemplo, se fosse escrever sobre contos de fadas não perderia mais que duas linhas.
2) Por que, racionalmente, alguém perde seu tempo escrevendo sobre o que não acredita? A enantiose do escritor? Não parece mais coerente, ainda que menos poético, escrever sobre o que se acredita? (Desde que se acredite em algo, por certo).
Trarei duas suposições para esclarecer minha ilação:
No primeiro caso, Deus não existe. Ponto. Se Ele não existe, que tipo de tolo perde tempo discorrendo sobre sua inexistência? Ataca-o partindo do pressuposto de que Ele é nada. Ataca o nada. O que torna, desde o início, todos os seus argumentos nulos.
No segundo caso, Deus existe. Existindo, que tipo de tolo ataca o Deus da criação? O que espera receber? Espera que Ele se revele de uma forma privativa e distinta para contestar seus argumentos?! Imagina que suas opiniões são assim tão relevantes para Deus, de modo que Ele suprirá seu vazio espiritual dando-lhe algo que tantas vezes pessoas que verdadeiramente O buscam, não encontram?
Darwin (e Dawkins) que me perdoe, mas minha inteligência ainda me aponta o Pentateuco para a criação da humanidade. Ainda é o melhor argumento. Talvez apareça outro. Espero-o para banir minha fé; fé aqui exprimida como asseveração de um fato. Até que surja outro argumento, o meu Deus é Iavé. O Deus de Israel. O Deus do Monte Moriá e do Monte da Caveira (O Gólgota).
Há dois montes me revelando do amor de Deus e um monte de bobagens desvirtuando-o. E fiz minha escolha. Ou fui escolhida.
Por fim, transcrevo Carlo Maria Martini: “Certamente, eu gostaria muito que todos os homens e as mulheres deste mundo, mesmo aqueles que não crêem em Deus, tivessem claros fundamentos éticos para operar com retidão e agissem em conformidade com eles”.
(Dáuvanny Costa)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Se o mundo precisa de heróis...

Todo o mundo já escreveu sobre Vanderlei Cordeiro de Lima e sobre o ex-padre Cornelius Horan. Todo o mundo sabe que Vanderlei, após ter 40 segundos de vantagem sobre os demais participantes da maratona, foi agredido e empurrado para fora da competição.
Será, então, que tenho algo a acrescentar?
Um corredor brasileiro, com grande possibilidade de alcançar o ouro, foi surpreendido por um ex-padre maluco que acredita ser um enviado divino trazendo uma mensagem muito importante à Terra.
Talvez o sentimento de Cornelius tenha sido o mesmo que o meu: Não vejo mudança significativa alguma no país (ao menos neste) após a conquista das medalhas. Gostaria de ver.
Mas não estou desculpando o Cornelius. Por que o ex-padre maluco não foi atrapalhar o jogo de vôlei quando as meninas do Brasil jogavam contra a Rússia?! Por que não fez isso com atletas cubanos ou ingleses?!
Eu não desculpo o Cornelius, mas talvez possa entender seu ato. Enquanto milhares de seres humanos passam fome em todo o mundo, são gastos milhões de dólares em Olimpíadas, copas do mundo e corridas automobilísticas.
Todos os dias há vítimas. Vítimas da fome, do frio, da violência ou do analfabetismo e o mundo inteiro volta seus olhos para os deuses gregos.
Talvez, em vez de voltar os olhos para o Olimpo, devamos voltá-los ao Céu, ao Criador. E talvez tenha sido essa a intenção do Cornelius naquele dia. Talvez tenha tentado nos fazer lembrar disso. Fez errado. Mas fez!
E quanto ao Vanderlei? Herói?
Reputo-o herói; mas não devido à medalha brônzea que ganhou ou à medalha dourada que deixou de ganhar. Reconheço que a medalha é um feito honroso (tão honroso que a seleção brasileira de futebol não compareceu, posto que não é exatamente nesse ouro que eles têm interesse...), mas ela (a medalha) não faz de ninguém um herói.
Heróis são os Policiais Militares que arriscam suas vidas todos os dias por uma sociedade indigna deles; que deixam seus pais, seus filhos e cônjuges para cumprir bravamente seu dever, tombando, muitas vezes, mas sempre destemidos, enquanto recebem soldos miseráveis por esse ofício.
Heróis são os Bombeiros que desdenham do perigo, arriscando suas vidas no salvamento de desconhecidos, enquanto recebem os mesmos soldos miseráveis.
E aqui lembro três destes heróis, que conheço bem: Sargento Carlos Eduardo Costa Lopes, 1ª Cia 2º BPChq, Cabo Arnaldo Feliciano, 10º GB e Tenente Coronel Joel de Augusto, extinto DAMCo.
Heróis são os pais que conseguem criar decentemente seus filhos num país de terceiro mundo, sustentando-os com o pão da dignidade e fazendo disso um sacerdócio.
Heróis são os universitários que não têm quem lhes custeie os estudos e, ainda assim, alcançam os ideais.
Heróis são os trabalhadores que recebem R$ 350,00 mensais e conseguem sobreviver com dignidade, num país que todos os dias faz questão de esquecê-los.
Heróis são os contribuintes que nunca vêem seu dinheiro de volta em serviços; que têm de pagar pela educação, pela saúde, garantir sua própria segurança e mesmo assim, continuam pagando seus impostos, sempre altos.
Heróis são os nordestinos que deixam sua terra e não têm medo de tentar a vida num lugar desconhecido.
Heróis são os advogados que não se vendem e que buscam a justiça, mesmo que às vezes seja ela contrária ao direito; enquanto esboçam um sorriso canhestro ao ouvirem que nenhum advogado vai ao céu.
Heróis são os juízes que mantêm imparcialidade em seus julgamentos; que não agem com venalidade e não 'lavam as mãos' à semelhança de Pilatos; que buscam corrigir injustiças, não praticar outras.
Heróis são os médicos que trabalham durante horas, passam noites sem dormir e ainda conseguem salvar vidas.
Heróis são os procuradores de justiça que realmente procuram-na. Causa incansável.
Heróis são homens e mulheres que trabalham um dia inteiro e à noite ainda olham nos olhos um do outro e podem falar de amor.
Heróis são homens e mulheres que têm firmeza de propósitos, que não abrem mão de seus sonhos e que não desistem de lutar.
Heróis são aqueles que defendem sua fé mesmo em face dos piores ataques. Exteriores e interiores. São protestantes que protestam sempre.

Heróis são aqueles que quanto mais trabalham menos têm e ainda assim toleram o rigor insolente dos credores sem mandar-lhes para algum lugar desconfortável.

Heróis são homens e mulheres que perdem tudo na vida, mas nunca perdem seus princípios.
Heróis são aqueles que têm em mente que o trabalho enobrece o homem e para quem não basta apenas herdar o patrimônio de outrem.
Heróis são aqueles que suportam com dignidade e sensatez os ataques pungentes do despeito de quem não puderam e tampouco quiseram amar.
Heróis são aqueles que correm uma maratona inteira, e mesmo que alguém – um Cornelius – lhes obste o caminho, conseguem voltar, sempre, com dignidade, com força e com coragem.
Heróis nem sempre ganham medalhas. Nem sempre ganham louros. Mas são sempre vencedores.
E é isso que faz do Vanderlei um herói. A persistência. A coragem. A paixão.
(Dáuvanny Costa, Olimpíadas de 2004)

A oração de um justo

Em comentário a texto recente do Lou, relatei-lhe que 'também' não encontrei a chave para o coração de Deus. Minhas orações não abrem as portas dos céus despejando chuvas torrenciais de bênçãos. Deus se conserva silente.

O Lou se incumbiu de perguntar a um determinado amigo anjo como andam meus pedidos lá no céu. Oxalá encontre algum. Estão cada vez mais raros de minha parte.
Ou talvez Deus os esteja tratando como spams. Deletando-os sem abrir.
Com efeito, orações não servem mesmo para alterar a vontade de Deus. Servem para alterar a nossa. E a nós.
(Dáuvanny Costa)

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Parto Anônimo (e parte anônima)

Tramita na Câmara dos deputados um projeto que prevê o denominado “Parto Anônimo”. Trata-se da possibilidade de uma mãe, ao dar à luz seu filho, não precisar se identificar, podendo, dessa forma, deixar a criança no hospital para que esse a encaminhe para adoção.
Essa prática vem sendo adotada na Europa faz algum tempo, inspirada pela prática medieval chamada de “roda dos enjeitados”. A roda dos enjeitados foi criada em Marselha, na França, em 1188. Cilindros de madeira giratórios eram instalados nas portas das igrejas e conventos e serviam para que as mães deixassem seus filhos em mãos seguras, sem que fossem identificadas. A mãe, após colocar o filho no cilindro, puxava uma campainha que avisava padres e freiras da presença da criança.
Na Europa o procedimento é parecido. Foi instalado em alguns hospitais, e a pessoa, através de uma janela, deposita o bebê em um berço equipado com sensores para alertar aos médicos que ali foi deixada uma criança. O projeto, no Brasil, tem uma pretensão deveras arrogante: coibir o abandono materno. O que, por si só, já é contraditório. O objetivo do projeto é diminuir o número de recém-nascidos abandonados, jogados no lixo, nos rios, nas ruas, expostos a toda sorte de infortúnios.
Ocorre que o projeto é cheio de falhas. E falaz.
Já existe e é legal a possibilidade de uma mãe doar seu filho. Não é crime e não implica tampouco em responsabilidade civil uma mãe entregar seu filho para adoção. Muitos hospitais já dispõem de assistentes sociais para esse esclarecimento às mães. De modo que o projeto nada acrescenta. Como salienta a Procuradora de Justiça, Dra. Maria Regina Fay de Azambuja: “Para um problema complexo, como é o abandono materno, uma solução simplista, para não dizer ingênua, é apresentada à sociedade brasileira”.
Não é possível em tão breve texto analisar uma questão tão importante quanto esta, mas tecemos estas considerações esperançosos de que nossos legisladores compreendam que o abandono materno não está somente ligado a fatores materiais, mas fatores sociais e psicossomáticos contribuem para o aumento considerável de abandono de crianças. Transcrevo parecer do Professor Luiz Edson Fachin: “As crianças nascidas não são coisas para serem entregues. São sujeitos de direito e afeto. (...) O parto sem mãe torna o filho um mero descendente genético, e seu nascimento, ao invés de ser abrigado num processo de adoção, poderá abrir os autos para uma sentença de morte”.
Creio na criação divina do mundo. No entanto, ultimamente, mesmo para crer que o homem descende dos primatas já se faz necessário ter fé. Animais não costumam abandonar seus filhos; tampouco jogá-los pelas janelas, queimá-los ou retalhá-los.
Talvez, para nossa lamentação, algumas mães estejam confundindo o substantivo parto, referente ao processo de nascimento, com o verbo partir; indo-se embora, renegando os frutos de seus ventres, negando a estes não apenas uma família, mas a possibilidade de serem amados e aceitos e negando a si mesmas a possibilidade de aprenderem uma nova forma de amor e doação.
(Dáuvanny Costa)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A TI. HOJE.

Hoje tudo me fala de você.
E quando não foi assim?
A manhã já traz você em seus primeiros raios de luz. As nuvens também me falam de você. O orvalho sendo derretido nas folhas, o bem-te-vi de canto triste anunciando a chuva, as plantas ansiosas pelas gotas de água, a chuva abençoada molhando a terra, o aroma exalado pela terra molhada...
Hoje tudo me fala de você.
A caneca azul sobre a mesa, o aroma suave do café (que hoje não fez para mim), as perguntas sem respostas, o computador ligado, a Bíblia, o toque do celular, o batom novo que comprei, o seu nome gravado nas jóias, os bichos de pelúcia sobre a cama, os travesseiros, o vazio de sua ausência...
Os livros nas estantes, o programa preferido na tv, a música que acabei de ouvir, os talheres que “pegamos emprestados” do tio, o roupão no cabide, os espelhos do quarto, a sirene da viatura que passou, os porta-retratos espalhados pela casa, os recadinhos colados na geladeira, o Direito concluído em minha vida, meus títulos, a munição ainda não deflagrada, minha tristeza, as crianças sorrindo, as praças vazias, o barulho dos carros, a roupa para lavar...
Hoje tudo me fala de você.
O apito do trem, a aveia no fogo, o meu sono leve, a lua trazendo a noite, os namorados de mãos dadas, as vitrines das lojas, as compras no supermercado, o jantar por fazer, o seu perfume, o caderno de receitas, as poesias, as lembranças alegres, o elã, a melancolia, o desespero, minha aliança...
Hoje tudo me fala de você.
O vento furioso, o despertador nervoso, as mudanças em minha vida, meus erros, os amigos de ontem, as esperanças adormecidas, os projetos inacabados, as lágrimas dolorosas, a incapacidade do mundo em compreender esta dor, meu primeiro pensamento ao acordar, meu último pensamento antes de adormecer...
Hoje e sempre tudo me fala de você. Hoje. Por ser hoje. Hoje. Dia de lembranças terríveis que debalde procuro esconder. Hoje indesatável do ontem. Hoje. O dia em que a vida parou.
(Dáuvanny Costa)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

As minhas Feridas da Alma

"Desde então para cá fiquei sombrio!
Um penetrante e corrosivo frio
Anestesiou-me a sensibilidade
E a grandes golpes arrancou as raízes
Que prendiam meus dias infelizes
A um sonho antigo de felicidade!"
(Augusto dos Anjos in Eu)

Feridas da Alma

..."fístulas d'escrófula, incicatrizáveis chagas" (Fialho d'Almeida in Os Gatos)

Minhas. Também.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Livros - O Evangelho Maltrapilho

Deus sussurrou em meu ouvido: 'O Evangelho maltrapilho'.
No dia em que o trouxe para casa, cheguei do trabalho, retirei-o da pasta e li a contracapa. Ocupei-me com coisas. Quando tornei a ele, bem mais tarde, só deixei-o às cinco horas da manhã do dia seguinte. Não pude parar de ler. Não estava de folga. O 'dia seguinte' era dia de trabalho. No entanto, não pude parar sua leitura. E jamais li um livro daquele modo. As lágrimas escorriam e eu, literalmente, soluçava. À exceção de meu primeiro livro, jamais li outro livro aos prantos. Jamais até Brennan Manning.
O Evangelho maltrapilho, de Brennan Manning, desnudou-me. Desmascarou-me. Mostrou-me minhas farsas. Entrou em minha alma e arrancou-me. Vi o quanto tinha necessidade de Deus. De confiar nEle. De tê-lo em mim e para mim.
Não sou boa. Isso não é crime tampouco pecado. Na verdade, isso (ser bom) sequer é possível. Sou honesta para assumir as minhas falhas. No entanto, tenho me sentido fracassada. Brado com Fernando Pessoa, poeta português: 'falhei em tudo'. Escondo-me e duvido impudentemente do amor de Deus. Falo sobre Ele e, às vezes, falo com Ele, mas não digo: 'Senhor, sei que me amas'. Não digo, em minhas explanações, o quanto Deus é amoroso. Desconheço seu amor. Fujo dele. Sinto-me sozinha. Há dois atributos no caráter de Deus que não costumo declarar. Abstenho-me, confesso – e me sinto envergonhada por confessar: Seu amor e sua justiça. Não creio no seu amor por causa das dores que sufocam minha alma; e sua justiça...
Após a leitura de O Evangelho Maltrapilho, senti-me livre. Livre para ser eu mesma, sem querer agradar; sem querer ser gentil porque não sei agir de outro modo. Sinto-me livre para me sentir amada. Admitir, a mim mesma, que sou filha amada de um Deus amoroso e desconhecido. Esposa amada de um marido amoroso cujo único objetivo sempre foi o de me fazer feliz. Tia amada de crianças adoráveis que sabem amar como se isso fosse a obra-prima de suas vidas. Amiga amada de amigos confusos que nem sempre sabem o que dizem. Irmã amada de pessoas que não sabem demonstrar, mas nem por isso me amam menos. Admitir, a mim mesma, que mesmo não sendo digna desse amor – de nenhum deles – sou amada. E posso amar.
A vida me anestesiou a sensibilidade. Não choro lendo livros. Pode acontecer de me emocionar com determinada leitura; deixo, então, o livro no canto e me ocupo com outra coisa até poder voltar a ele. Entretanto, eu precisava chorar. Precisava ouvir Deus rasgando meu coração. E carne rasgando dói.
O capítulo sobre o segundo chamado foi água sobre uma terra árida e sedenta. Eu apenas suplicava: “Deus!”. Há algumas semanas tive uma experiência com Deus. Nada sobrenatural. Nenhuma visão ou audição. Nada de teofania. Não consegui abranger Deus com meus sentidos. Entretanto, foi a experiência mais real que já tive acerca de Deus. Liguei para um querido amigo para contar-lhe como estava me sentindo. Gracejei com ele dizendo: “Creio que me converti”. O amigo referido - Sérginho - talvez seja a única pessoa com quem eu realmente possa ser eu mesma. Sou joio e trigo. Sou virtude e vício. Naquela noite, meu coração transbordou. Meu espírito transbordou. Precisava, também, molhar a terra de alguém. Disse a ele, entre lágrimas: “não quero dormir. Tenho medo de perder isso”. E não dormi. Nem perdi.
Não foi uma teofania. Nem preciso que seja. Não preciso mais. Naquela noite Deus se fez real para mim. Ele se mostrou para mim de uma forma sem forma. Sua voz não foi ouvida como um trovão em minha sala. Ele “apenas” me mostrou sua glória. Apenas me fez compreender que não cabe em minha vida. Ele é maior.
Olho para minha vida e é esse meu óbice no relacionamento com Deus. Minha vida é injusta, portanto, Deus é injusto. Não! Ele não cabe em minha vida. Ele a abrange; a abraça e a envolve. Variações de um mesmo fato.
A graça de Deus me assusta e me confunde. Não apreendo seu caráter, por mais que deseje, mas hoje sei que Ele me ama. De uma forma que não mereço. Seu amor não está demonstrado em nada – ou em ninguém – que Ele me dê ou me tire. Está demonstrado, simplesmente, porque Ele vive em mim.
(Dáuvanny Costa)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Perdas e Danos

Tenho relatado aqui perdas e danos. E eventuais vitórias.
Resta demonstrado que o mundo não se interessa por meu desespero. Contudo, ainda assim, sou uma desesperada. Serei-o. Um dia mais. Com toda a força que consigo ter.
(Dáuvanny Costa)

Revolte-se

"(…) O homem que se não revolta, não cria. Puxa o carro da rotina".
(Miguel Torga in Diário, vol. V).