"Eu não sou boa nem quero sê-lo,
contento-me em desprezar quase todos, odiar alguns, estimar raros e amar um".
(Florbela Espanca)
"Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha DESATENÇÃO." (Fernando Pessoa/Bernardo Soares)
domingo, 7 de janeiro de 2007
segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
Se eu fosse Deus
Se eu fosse Deus... um dia apenas...
faria sorrir as crianças, sem afazeres ou preocupações,
as ocuparia com brincadeiras de sua idade.
Se eu fosse Deus...
alimentaria todos os famintos,
consolaria os tristes
e devolveria, a quem ama, os amores que partiram.
Não permitiria que uma mãe enterrasse seu filho,
não conceberia amanhãs não vividos a jovens viúvos,
eliminaria todas as guerras
e não deixaria que usassem meu nome em vão.
Por apenas um dia...
Proclamaria a tão sonhada paz,
incendearia os presídios - lotados -
e haveria um anjo em cada casa.
Por apenas um dia...
a África seria alegre e a alma dos brancos seria negra.
Por apenas um dia...
as lágrimas de dor seriam proibidas
e os pássaros cantariam o dia inteiro.
Se eu fosse Deus...
Interferiria na Terra, castigando e premiando
consoante meu senso de justiça.
Mulheres não seriam violentadas, apenas amadas.
Crianças não seriam espancadas e abandonadas.
Mães não seriam jamais humilhadas.
Se eu fosse Deus...
os homens de boa vontade: médicos, advogados,
professores, policiais, bombeiros, agricultores,
seriam respeitados e honrados.
Ocorre-me, porém, que jamais poderia sê-lO,
porque não daria minha vida
para salvar homens maus.
Eu advogo, mas não me envolvo;
Aconselho, mas não me entrego;
Ajudo, mas não renuncio.
Sonhos desvairados!
Alma blasfema!
A dor cega-me.
Acaso não sei que "certo príncipe" sondou sentar-se no trono de Deus?!
Julgo-me justa - mais que Ele! - mas não morreria - como Ele fez -
por uma humanidade corrompida.
Alma blasfema!
"Senhor! Ajuda-me em minha incredulidade!"
Permita-me não parar de crer.
(Dáuvanny Costa)
faria sorrir as crianças, sem afazeres ou preocupações,
as ocuparia com brincadeiras de sua idade.
Se eu fosse Deus...
alimentaria todos os famintos,
consolaria os tristes
e devolveria, a quem ama, os amores que partiram.
Não permitiria que uma mãe enterrasse seu filho,
não conceberia amanhãs não vividos a jovens viúvos,
eliminaria todas as guerras
e não deixaria que usassem meu nome em vão.
Por apenas um dia...
Proclamaria a tão sonhada paz,
incendearia os presídios - lotados -
e haveria um anjo em cada casa.
Por apenas um dia...
a África seria alegre e a alma dos brancos seria negra.
Por apenas um dia...
as lágrimas de dor seriam proibidas
e os pássaros cantariam o dia inteiro.
Se eu fosse Deus...
Interferiria na Terra, castigando e premiando
consoante meu senso de justiça.
Mulheres não seriam violentadas, apenas amadas.
Crianças não seriam espancadas e abandonadas.
Mães não seriam jamais humilhadas.
Se eu fosse Deus...
os homens de boa vontade: médicos, advogados,
professores, policiais, bombeiros, agricultores,
seriam respeitados e honrados.
Ocorre-me, porém, que jamais poderia sê-lO,
porque não daria minha vida
para salvar homens maus.
Eu advogo, mas não me envolvo;
Aconselho, mas não me entrego;
Ajudo, mas não renuncio.
Sonhos desvairados!
Alma blasfema!
A dor cega-me.
Acaso não sei que "certo príncipe" sondou sentar-se no trono de Deus?!
Julgo-me justa - mais que Ele! - mas não morreria - como Ele fez -
por uma humanidade corrompida.
Alma blasfema!
"Senhor! Ajuda-me em minha incredulidade!"
Permita-me não parar de crer.
(Dáuvanny Costa)
domingo, 31 de dezembro de 2006
Novo Ano, Dia comum
Hoje, para muitos, é dia de rever conceitos e valores, fazer uma retrospectiva do ano que termina, pensar nos projetos futuros, fazer promessas e decretar vitórias. É um dia de festa e alegria em família - para muitos.
Para outros - tantos outros - é dia de lamentações. Lamentar pelo ano perdido e desejar que o ano infante traga melhores dias.
Para outros, ainda, é um dia comum. Um dia que chegará ao fim às 23:59 horas levando consigo o ano sobre as costas. É apenas um ano que passa, como as horas, os dias, os meses. Tempo após tempo.
Para mim é assim, dia comum. Nada de promessas. Nada de balanços porque nossa vida não é uma contabilidade tampouco um parque infantil. Um ano comum termina e outro se inicia: ciclo da vida e não escolha nossa.
Ganhei amigos no ano que termina, amigos que desejo manter no decorrer do ano que se inicia e dos anos seguintes. Amigos de quem aprendi a gostar e a respeitar, amigos de quem sinto saudades quando ausentes. Alguns conheço apenas pelos escritos, trocamos correspondências como amigos de infância; alguns conheço apenas pela voz, mas não há distinções nos sentimentos. Dos que são presentes, alguns se tornaram mais íntimos, a amizade se solidificou ganhando ares de eternidade. Um brinde a todos! Aos de perto e aos de longe, aos de sempre e aos de "às vezes", aos que olho nos olhos e aos que olho nos corações.
Alguns se afastaram, outros se perderam. Por motivos fúteis. Faz-me pensar em como nós humanos somos desatentos e desinteressados. Perdemos as pessoas que gostamos porque somos egoístas, mais preocupados em mostrar nossas próprias opiniões, em provar que estamos certos, do que em amar e demonstrar nosso amor. Pisamos nas pessoas apenas para mostrar que temos razão. E as pessoas se afastam e nos afastam delas.
Diante desse quadro, que posso desejar para um novo ano? Ora! O que desejo a cada novo mês, nova semana e novo dia: Mais tolerância entre os homens, mais amor entre os povos, mais paz entre os cristãos. Para um novo ano não desejo nada novo. Apenas que os homens despertem para novas realidades, unam-se em suas fraquezas e incertezas, sejam menos ríspidos em suas atitudes, aprendam a perdoar, a não serem amargurados, a não terem sentimentos mesquinhos uns pelos outros.
Desejo que as pessoas falem menos e façam mais. Farei minha parte. Plantarei as sementes. Não desejarei nada que eu própria não possa fazer.
E que venha um novo ano de trabalho.
(Dáuvanny Costa)
domingo, 17 de dezembro de 2006
Por que se escreve?
"A grande maioria escreve porque busca fama e dinheiro, por distração, porque simplesmente tem facilidade, porque não resiste à vaidade de ver o seu nome em letras de forma.
Restam, então, os poucos que contam: aqueles que sentem a necessidade obscura mas obsessiva de dar testemunho de seu drama, de sua infelicidade, de sua solidão. (...) São homens que não escrevem com facilidade, mas com dilaceramento. São indivíduos na contramão, terroristas ou foras-da-lei".
(Ernesto Sabato)
Restam, então, os poucos que contam: aqueles que sentem a necessidade obscura mas obsessiva de dar testemunho de seu drama, de sua infelicidade, de sua solidão. (...) São homens que não escrevem com facilidade, mas com dilaceramento. São indivíduos na contramão, terroristas ou foras-da-lei".
(Ernesto Sabato)
domingo, 29 de outubro de 2006
Semeadura
Certa vez plantei um ipê. Minto. Plantei a semente e semente não é árvore, é perspectiva.
Desejei suas flores. Minto novamente. Desejei os sentimentos de Rubem Alves em seu "Os ipês estão floridos". Segundo o Rubem, ipês são 'do contra', fazem as coisas ao contrário, "as outras árvores fazem o que é normal - abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está prá chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio".
A comparação à sarça ardente fez arder minha alma. O fato é que plantei a semente. Após 4 ou 5 anos, o ipê cresceu e floresceu; pássaros se refugiavam e rejubilavam em seus ramos. Outro dia notei algo peculiar: um novo ipê brotava ao lado daquele. Teria alguém se compadecido da solidão florida de minha árvore?...
Eu não havia me dado conta de que os pássaros espalharam as sementes, centenas de pássaros espalhando centenas de sementes; e se apenas uma delas vingasse (como na parábola do semeador), aquela árvore não estaria mais sozinha.
Da mesma forma com os homens. Espalhamos sementes. O tempo inteiro. Resta-nos apenas refletir se são sementes de ipês que florescerão no inverno de algumas almas trazendo-lhes sol da primavera.
(Dáuvanny Costa)
Voto não tem preço
Gostaria de escrever algo sobre as eleições desse domingo, mas estou sem inspiração. Por estar fora de meu domicílio eleitoral - e fico contente por isso - justifiquei meu voto. Justifico: não tinha candidato - e não tenho.
Tenho motivos pessoais para não votar no candidato do PSDB; tenho motivos éticos para não votar no candidato do PT - partido da corrupção e da incompetência. Assistimos atônitos a um mar de lama, mas não obstante estarmos atônitos, nos mantivemos passivos. Espécie de "epoquística". Estamos alheios.
Enfim, voto não tem preço, tem conseqüências. Faço votos de que votem bem. Esquerda ou Direita não tem mais importância, visto que os partidos estão partidos; importante é votar em honestidade. Eu voto. Mas quer me parecer que na atual conjuntura sou voto vencido.
(Dáuvanny Costa)
Rui Barbosa: "E nessa destruição geral das nossas instituições, a maior de todas as ruínas, senhores, é a ruína da justiça, colaborada pela ação dos homens públicos, pelo interesse dos nossos partidos, pela influência constante dos nossos governos. E nesse esboroamento da justiça, a mais grave de todas as ruínas é a falta de penalidade aos criminosos confessos, é a falta de punição quando se aponta um crime que envolva um nome poderoso, apontado, indicado, que todos conhecem, mas que ninguém tem coragem de apontá-lo à opinião pública, de modo que a justiça possa exercer a sua ação saneadora e benfazeja."
À minha irmã
Não é uma regra, e não há que se generalizar, mas as pessoas que passam por maiores provações e dores são aquelas que mais se aproximam de Deus. A razão é simples: chegam ao ponto zero, se despojam de conceitos, adquirem maior maturidade e Deus pode agir em suas vidas. Elas se tornam maleáveis, Deus pode usá-las. Elas aprendem - de Deus - como usar a fé que lhes é dada. Tornam-se barro e podem ser trabalhadas entre os dedos do Escultor. A vida não é justa - claro que eu sei - mas o que passa agora, mesmo que sufocante, vai ajudá-la a compreender melhor aos outros e melhor a si mesma. Deixe Deus ser Deus. Ele não desistiu de você.
(Dáuvanny Costa in As muitas águas, 2002 - AbbaPress Editora)domingo, 8 de outubro de 2006
O que leio
Freqüentemente me perguntam quais livros leio ou recomendo. Decidi fazer uma lista de AUTORES, certamente não é exaustiva e não se trata de número claustro, somente um referencial - belo referencial eu completaria.
BÍBLIA. Philip Yancey. Sófocles. Shakespeare. Baudelaire. Fernando Pessoa. Florbela Espanca. Vinícius de Moraes. Dostoiévski. C.S.Lewis. Victor Hugo. Saint-Exupèry. George Orwell. Ernest Hemingway. Cícero. E.M. Cioran. Mark Twain. John Stott. Caio Fábio. Agostinho. Gogol. Paulo (o apóstolo). Tolstói. Jorge Luís Borges. Rubem Alves. Tournier. Milton. Larry Crabb. George MacDonald. Ayn Rand. Richard Bach. La Boètie. Morris West. Rudolf Von Ihering. Maria Garcia. Pontes de Miranda. Gabriel Garcia Marquez. Arthur Schopenhauer. Cesare Beccaria. Dietrich Bonhoeffer. Friedrich Nietzsche. Miguel de Cervantes. Sören Kierkegaard. Maquiavel. Honoré de Balzac. Gaston Bachelard. Brooke Newman. Aldous Huxley. Jack Miles. Orígenes Lessa. John Pollock. Homero. Gibran. Eça de Queirós. Goffredo Telles Jr. Machado de Assis. Érico Veríssimo. Antônio Vieira. Henry Nouwen. Tozer. Érico Veríssimo. Guimarães Rosa. Isak Dinesen (Karen Blixen). Orlando Boyer. John Donne. Carnelutti. Chesterton. Brennan Manning.
Como disse, não se trata de lista exaustiva e há muitos de que gosto e sequer foram incluídos aqui; mas 'espremerei' um pouco mais para os neófitos:
Sugiro a BÍBLIA, sempre; penso que nenhum autor compete com Deus; depois dEle, o mundo nada pode nos oferecer, conquanto nos brinde com bons escritores. Os estrangeiros devem ser lidos: Recomendo Victor Hugo (francês), Dostoiévsky (russo) e Shakespeare (inglês); vastos como é vasta a vida. Indicaria, dentre os escritores cristãos, o sempre brilhante Philip Yancey, o indescritível Brennan Manning, Henry Nouwen, Eugene Peterson, Stott e, certamente, C. S. Lewis. Bem, se nessa inefável lista de bons escritores ainda quiserem acrescentar poesia, sugiro John Donne e Fernando Pessoa (devem ser lidos com moderação). Brasileiros indico Machado de Assis, Augusto dos Anjos, Ricardo Barbosa e 'Clarice Lispector'. Se couber mais alguma coisa, sugiro Jack Miles, mas advirto: Leitura perigosa, quase imoral, no entanto, é fascinante flertar com esses pensamentos. Ayn Rand - indubitavelmente. É isso. Certamente deixei, imperdoavelmente, grandes escritores de fora, mas para começar, a lista é suficiente. Em outro momento farei menção a títulos. Paz-ciência.
(Dáuvanny Costa)
Um lapso
Os dias alongam-se...
Por vezes acho que já vivi demais; trago os olhos fatigados de tanto procurar e sou uma das jovens mais velhas de minha época.
Nada há mais sobre a Terra que me deixe empolgada. Não uso, todavia, nesse instante, a palavra 'empolgada' como sinônimo de 'entusiasmada', pois ainda trago Deus dentro de mim. E 'entusiasmo', em grego, significa exatamente isso.
Há horas em que o sofrimento é quase um amigo, porque é o único que não me deixa, me perseguindo intimamente, como pessoa ou sombra alguma jamais atreveu-se.
Abandono-me.
Em certas ocasiões faço referência ao livro de Jó, me identificando com ele. Declaro, cabisbaixa: "sou Jó"... sempre arranco sorrisos, às vezes risadas, e, como boa observadora que sou, teço considerações: De fato as pessoas são cruéis e se divertem com o sofrimento alheio. Em que canto de suas almas elas escondem a compaixão? Em que momento de suas existências inventaram que sorrir é mais proveitoso que chorar? Falo (escrevo) da igreja, mas não falo só dela. Insisto em falar da igreja porque todo homem deve amar, mas aquele que professa uma fé tem obrigação de amar. O que há de engraçado na vida de Jó?!
Não transbordo religião, por vezes sou cética - mas os desavisados jamais compreenderão isso. Creio com toda a minha incapacidade de crer. Alguns jamais compreenderão isso. Para entender os sentimentos de outrem é necessário mais que ver, é necessário sentir; por vezes é necessário andar um bom tempo sobre suas sandálias, como diz um provérbio antigo.
Vivo uma vida que não é minha. Finjo demais. Sorrio demais. Aconselho demais. E ainda espero a primavera. Viver não é isso, minha gente. Viver é outra coisa.
Já escrevi alhures que esse blog não é autobiográfico (basta passear pelos textos), sentimentos aqui são meus, outros eu empresto, mas isso os desavisados também não compreenderão. Não faz mal algum, empresto de Fernando Pessoa: Ser compreendido é prostituir-se.
(Dáuvanny Costa)
Meu Deus, me dê a coragem
"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."
(Clarice Lispector)
(Clarice Lispector)
CARTA ABERTA AOS PEQUENOS
Meus pequenos,
Essa pode ser a última carta que escrevo-lhes.
Não é nenhuma data especial. Não é seu aniversário, dia das Crianças ou Natal. Tampouco, meu aniversário. Não é um dia de grandes notícias. A vida ainda se arrasta, sorrateira; a dor ainda fere meu coração; ainda não ganhei os milhões de dólares esperados, e as lágrimas (que comovem vocês desde que eram bebês) permanecem teimosas. O amor que nos une, no entanto, sempre é fato comemorativo. É sempre novo.
Hoje, nessa mesa abarrotada de papéis, fixei o olhar nos rostinhos lindos que a enfeitam e não pude deixar de sentir saudades. Saudades dos momentos juntos - e saudades, principalmente, do que eu não vivenciei.
É importante que vocês entendam o que significa saudade: Há alguns anos, o tio Eduardo trabalhava longe de casa, e havia dias em que a saudade que sentia dele, quando o sol se punha, era tão intensa que não podia esperar sua chegada. Meu coração ficava como que suspenso no ar, ansioso. Havia dias em que ia ao seu encontro no trabalho e enfrentava horas de viagem - apenas para vê-lo mais cedo.
Hoje, como cotidianamente, essa saudade foi sentida - por ele - e por vocês. Ante a impossibilidade de vê-los nesse momento e apertá-los de encontro ao meu coração, eu queria que soubessem do amor que sinto; soubessem que desejaria gastar todos os meus sábados com vocês; sem TV, sem trabalho, sem telefone, sem livros e sem sombras.
Um dia, quando forem grandes, meus pequenos, capazes de tomar suas próprias decisões e escolher os seus caminhos, espero que em seus corações conservem as crianças lindas que são agora. Que sejam homens e mulheres íntegros e éticos, que lutem por seus ideais, mas que permaneçam puros. Vivam ilimitadamente a liberdade de serem vocês mesmos. E amem ilimitadamente; até a última gota.
Nesse momento, bebo o costumeiro chá, e então me lembro de uma bebê (dois anos), que mal conseguia segurar sua caneca, sentadinha em um colchão enquanto me fazia companhia, soprando seu doce chá. Lembrança essa que faz surgir um sorriso em meus lábios. Essa bebê cresceu - assim como meu amor por ela e pelos que vieram após ela. Também me lembro de outra bebê (quatro anos) que "fugia" de chá, "não gosto de chá", ela dizia emburrada; e isso arranca uma gargalhada de mim. São lembranças doces. Mas hoje não quero escrever apenas sobre lembranças; quero escrever sobre esperanças.
VOCÊS ME DÃO ESPERANÇA. Quando olho para vocês, não tenho dúvidas de que o céu é real. E a vida quase faz sentido.
Sou uma abençoada.
É uma frase que espreme meu coração e o faz sangrar como uma uva, mas eu a disse em voz alta. É evidente que não podem entender, meus pequenos, mas isso faz de meus olhos um manancial.
Peço, porém, que Deus me conceda forças para repetí-la até que minha mente descanse e meu coração seja consolado. Vocês são anjos que Ele me emprestou e que me dão um vislumbre do paraíso nesse mar de sal. Vocês - e ele, para sempre - me apresentaram o Paraíso e me fizeram uma pessoa melhor. O segredo contido nessa mensagem é o que me faz suportar conviver com os medíocres. E sobreviver.
Sou uma abençoada.
(Dáuvanny Costa)
domingo, 1 de outubro de 2006
A Ética deles
Pelo 1º de Outubro - Eleições:
É tarde! Perdi minha ética.
Madrugada alta
altas horas de solidão
em que sigo acompanhando a chama
que me chama e serpenteia.
Respiro os pecados do mundo
num imundo axioma que me toma
e choro sem poder dormir.
Nas favelas, nas cadeias, no senado,
por todo o lado há culpados,
há inocentes.
Ainda que o mundo seja injusto
há sempre um custo para a verdade.
Lavo minhas mãos como um Pilatos
busco culpados sem querer de fato achá-los.
Onde está minha ética?
Se estou cética e não quero nem pensar em Deus?
Quanto mais nos meus que me esperam voltar ao lar
às origens do meu ser e humildade
obscurecidas pelo poder e autoridade
e essa caixa de maldades
que abriu-se em mim...
conheço o justo e só pratico o injusto
desde que me vendi em troca de uma cadeira
elétrica, porém faceira, que me seduz.
Fizeram-me procuradora me entregando confiança
que ignoro e não procuro nada
a não ser minhas vontades
e em cada azo de fazer o mal eu me deleito.
Vendi-me por trinta moedas.
Vendi minha honra e dignidade,
tornei-me Judas, mas cansei de o ser
- e não ser.
Minha esperança é vã.
Quero a manhã de sol risonho,
quero de volta o sonho que me pôs aqui,
quero de volta meu sentimento
no sussurrar do vento desse amanhecer
sem moral sou acuado animal
que uiva para a inalcançável lua
Despi-me de ética
só pela estética de parecer o que não sou.
Tornei-me vazia
e isso não me acalma.
Ganhei o mundo e perdi a alma
defronte de um eletrônico painel
sou uma rainha de papel
que não governa nada.
Não tenho mais povo, só partido,
partido está meu coração
que se despedaça a cada aprovação de lei
que eu não li e que não sei,
mas dei meu parecer.
Quero fugir antes que de vez me perca
contudo, perco minha cabeça se abrir a boca
para discordar.
É tarde. Perdi minha ética.
(Dáuvanny Costa)
É tarde! Perdi minha ética.
Madrugada alta
altas horas de solidão
em que sigo acompanhando a chama
que me chama e serpenteia.
Respiro os pecados do mundo
num imundo axioma que me toma
e choro sem poder dormir.
Nas favelas, nas cadeias, no senado,
por todo o lado há culpados,
há inocentes.
Ainda que o mundo seja injusto
há sempre um custo para a verdade.
Lavo minhas mãos como um Pilatos
busco culpados sem querer de fato achá-los.
Onde está minha ética?
Se estou cética e não quero nem pensar em Deus?
Quanto mais nos meus que me esperam voltar ao lar
às origens do meu ser e humildade
obscurecidas pelo poder e autoridade
e essa caixa de maldades
que abriu-se em mim...
conheço o justo e só pratico o injusto
desde que me vendi em troca de uma cadeira
elétrica, porém faceira, que me seduz.
Fizeram-me procuradora me entregando confiança
que ignoro e não procuro nada
a não ser minhas vontades
e em cada azo de fazer o mal eu me deleito.
Vendi-me por trinta moedas.
Vendi minha honra e dignidade,
tornei-me Judas, mas cansei de o ser
- e não ser.
Minha esperança é vã.
Quero a manhã de sol risonho,
quero de volta o sonho que me pôs aqui,
quero de volta meu sentimento
no sussurrar do vento desse amanhecer
sem moral sou acuado animal
que uiva para a inalcançável lua
Despi-me de ética
só pela estética de parecer o que não sou.
Tornei-me vazia
e isso não me acalma.
Ganhei o mundo e perdi a alma
defronte de um eletrônico painel
sou uma rainha de papel
que não governa nada.
Não tenho mais povo, só partido,
partido está meu coração
que se despedaça a cada aprovação de lei
que eu não li e que não sei,
mas dei meu parecer.
Quero fugir antes que de vez me perca
contudo, perco minha cabeça se abrir a boca
para discordar.
É tarde. Perdi minha ética.
(Dáuvanny Costa)
Voltando...
Há um tempo determinado para todas as coisas e a vida é cheia de surpresas. Surpresas dolorosas tantas vezes; surpresas que podem destruir nossas vidas (ou nos tornar mais fortes). Surpresas que não desejamos. Há outras, todavia, agradáveis. Surpresas que nos fazem sorrir de novo, aquele riso de infância, riso que não sabemos mais rir.
Há um tempo determinado para todas as coisas. Difícil é ter a sabedoria para notar esse tempo. Que ele se faça hoje! Tempo de quebrar cadeias, tempo de restauração, tempo de ir ao parque com a cesta repleta para o piquenique. Tempo de conhecer e desfrutar o novo. Todavia, não há 'tempo determinado para amar', porque esse tempo é sempre. E o amor é sempre o mesmo, sempre antigo, porque é um verbo único que eu não conjugo no passado.
Há um tempo determinado para todas as coisas e talvez (minha única ciência) hoje seja o tempo de escrever novamente nesse blog; e o faço como a mãe que embala seu filho. Com cuidado vigilante. Por isso não escrevo sempre. Palavras são como frutas: não podem ser colhidas verdes nem aproveitam se apodrecidas. Tomo cuidado com as palavras porque Ele é o verbo.
Estive ausente. Circunspecta. Ocupada. Pré-ocupada. Como disse um amigo meu: saí sem deixar bilhete sob a caneca... espero que meus dois leitores possam perdoar-me. O café esfriou. Será que dá tempo de fazer um fresco, fumegante, novo?
Há um tempo determinado para todas as coisas. E chegará um tempo também em que aprenderei a agradecer o carinho dos amigos presentes. Aprenderei a olhar através deles com os olhos da graça que Deus deseja que eu tenha. Aprenderei também a escrever e então, talvez não plante mais esse rabiscos aqui, mas falarei ao coração de cada um.
Há um tempo determinado para todas as coisas. Meu tempo é sempre.
Há um tempo determinado para todas as coisas. Difícil é ter a sabedoria para notar esse tempo. Que ele se faça hoje! Tempo de quebrar cadeias, tempo de restauração, tempo de ir ao parque com a cesta repleta para o piquenique. Tempo de conhecer e desfrutar o novo. Todavia, não há 'tempo determinado para amar', porque esse tempo é sempre. E o amor é sempre o mesmo, sempre antigo, porque é um verbo único que eu não conjugo no passado.
Há um tempo determinado para todas as coisas e talvez (minha única ciência) hoje seja o tempo de escrever novamente nesse blog; e o faço como a mãe que embala seu filho. Com cuidado vigilante. Por isso não escrevo sempre. Palavras são como frutas: não podem ser colhidas verdes nem aproveitam se apodrecidas. Tomo cuidado com as palavras porque Ele é o verbo.
Estive ausente. Circunspecta. Ocupada. Pré-ocupada. Como disse um amigo meu: saí sem deixar bilhete sob a caneca... espero que meus dois leitores possam perdoar-me. O café esfriou. Será que dá tempo de fazer um fresco, fumegante, novo?
Há um tempo determinado para todas as coisas. E chegará um tempo também em que aprenderei a agradecer o carinho dos amigos presentes. Aprenderei a olhar através deles com os olhos da graça que Deus deseja que eu tenha. Aprenderei também a escrever e então, talvez não plante mais esse rabiscos aqui, mas falarei ao coração de cada um.
Há um tempo determinado para todas as coisas. Meu tempo é sempre.
sexta-feira, 4 de agosto de 2006
Notícias
Notícia: PF prende 23 em Rondônia em operação contra venda de sentenças
A Polícia Federal prendeu deputados, presidente do TJ e outras autoridades em Rondônia, em operação contra venda de sentenças. Segundo a manchete: "Grupo atuava intensamente na dilapidação do dinheiro público". Dentre os presos, muitos têm direito a foro especial, isto é, têm prerrogativas de se verem processados perante o Tribunal de Justiça. Meliantes, contudo, com prerrogativas. Novidade alguma, haja vista os criminosos, nesse país, terem comumente mais direitos que os cidadãos honestos.
Já que o assunto é Direito, cabe lembrar que o Direito é um meio de mitigar as desigualdades, e a luta pelo direito, relembrando Rudolf Von Ihering, é o dever do interessado para consigo próprio. Cabe a pergunta: Até quando o povo suportará a cabeça da hidra chamada corrupção, imoralidade e ilegalidade?
Quid vobis videtur?
(Dáuvanny Costa)
Chá de laranja e Teologia
Perguntam-me com uma frequência impertinente qual minha posição teológica. Respondo - não sem a mesma impertinência - que minha posição teológica é "de joelhos". Certamente, como Teóloga, posso defender posições mais apologéticas, todavia, há mais convicção na explicação impertinente que uso.
Visto minha crença como uma segunda pele e exprimo essa convicção porque sei o preço que ela me custou; preço esse que jamais pediria a alguém para pagar. Não creio em fé que não foi provada até quase desaparecer; não creio em vidas sem dúvidas ou incertezas; não creio no cristianismo da moda que vende milagres como se fosse uma feira de peixes; não creio em vitórias baratas; em caminho sem cruz; em sorrisos sem lágrimas. Creio apenas em Deus; naquele Deus que foi humilhado e crucificado. Alguém lembra-se?
Esse blog - e minhas defesas à fé - pode confundir os desavisados. Os escritos e as falas que ressoam de mim podem soar - aos desavisados - como contradição. Pois que seja! Dúvidas? Tenho-as, e por tê-las, busco respostas, destarte, as dúvidas me aproximam de Deus. Contraditório mesmo. Lamento por não poder explicar melhor. É minha fé, não em mim, mas naquele que me sustenta e guia mansamente mesmo nos vales da sombra da morte. Minha fé - pronome possessivo.
Tenho ouvido - e lido - críticas (em roupas de conselhos (?)) à minha vida cristã. Todavia, tenho perguntado constantemente o que tenho a oferecer a Deus e à sua igreja. Nada. Sou, como escreveu Kiril, o Papa, pelas mãos de Morris West, uma mulher que foi arrancada à vida, como Lázaro, e a ela voltou, pela mão do Senhor. Costumo empregar o salmo 18 para dizer que Ele me tirou das águas profundas ("as muitas águas"). Quero, por esse motivo, que Ele faça de mim a melhor, para que eu possa colaborar na condução da igreja de volta a Ele. E a igreja não é um lugar de prosperidade e gente feliz - conforme se ouve por aí - também é o lugar de homens (e mulheres) confusos, sofredores, perdidos, negados, traídos, homens e mulheres agonizantes a chorar na noite; lugar de crianças famintas e abandonadas, esquecidas, prostituídas. A igreja também é formada de pecadores e foi para esses que, de fato, o Cristo esteve entre nós.
Somos pastores negligentes. Somos egoístas e a maior parte do tempo medíocres. Não confessamos as próprias dúvidas; devo pensar que é uma raça nova de superheróis - os supercrentes, cujas orações são sempre ouvidas e respondidas (favoravelmente, lembro). Eu? Ainda pelas mãos de Kiril respondo: "oro, mas não ouço a trovoada na montanha; meus olhos não veêm os esplendores nas colinas; encontro-me entre Deus e o homem, mas só ouço o homem e a voz do meu coração" (As sandálias do Pescador, Morris West). Já vi o pior que me pode acontecer e ainda creio, portanto, isso basta. Não preciso provar nada para ninguém.
Não tenho respostas; principalmente não tenho frases prontas e mágicas. Só tenho esperança. Todavia, Deus, para mim, é tão real quanto essa xícara de chá de laranja com especiarias que agora bebo.
(Dáuvanny Costa)
(Dáuvanny Costa)
sábado, 22 de julho de 2006
O Desaparecido
"Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim. Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão. Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor".
(Rubem Braga)
(Rubem Braga)
quinta-feira, 20 de julho de 2006
A ti - ALMA GÊMEA
"Alma gêmea de minha'lma
flor de luz de minha vida
Sublime estrela das belezas da amplidão.
Quando eu errava no mundo
triste e só, no meu caminho, chegaste, devagarinho,
e encheste-me o coração.
Vinhas na bênção das flores da divina claridade,
tecer-me a felicidade em sorrisos de esplendor!!!
És meu tesouro infinito, juro-te eterna aliança,
porque sou tua esperança, como és todo meu amor!
Alma gêmea de minha'lma,
se eu te perder algum dia
serei tua escura agonia,
da saudade nos seus véus.
Se um dia me abandonares,
luz terna dos meus amores,
hei de esperar-te, entre as flores da claridade dos céus."
(Ernesto de Curtis)
... e hei de encontrar-te. Para isso resto.
flor de luz de minha vida
Sublime estrela das belezas da amplidão.
Quando eu errava no mundo
triste e só, no meu caminho, chegaste, devagarinho,
e encheste-me o coração.
Vinhas na bênção das flores da divina claridade,
tecer-me a felicidade em sorrisos de esplendor!!!
És meu tesouro infinito, juro-te eterna aliança,
porque sou tua esperança, como és todo meu amor!
Alma gêmea de minha'lma,
se eu te perder algum dia
serei tua escura agonia,
da saudade nos seus véus.
Se um dia me abandonares,
luz terna dos meus amores,
hei de esperar-te, entre as flores da claridade dos céus."
(Ernesto de Curtis)
... e hei de encontrar-te. Para isso resto.
terça-feira, 4 de julho de 2006
Não estou [...]
Há reclamações acerca de minha ausência nesse blog.
Mas não escrevo por escrever. Quero sentido. Quero saborear. Quero sabedoria. Não quero escrever mesmices e redundâncias, portanto, calo-me. Minhas mãos calam-se. Mas o calo aperta. O dia cansou-me. A vida cansa-me.
Por que não escrevo sobre as ciências que aprendi? Porque hoje a única ciência que me importa é que eu amo. Presente. Presente de Deus para mim. Presente roubado. Futuro roubado. Arrancado de mim. Mas, acontecimentos inesperados geram novas forças. E eis que elas surgem, mas o tempo ainda não curou as dores. Estão aqui. Explodem. Meu silêncio quer gritar. Meu grito quer descanso.
Escrevo demorando nas palavras, mas hoje tenho pressa. Vim escrever que não estou e não sei quando estarei. Admito: esse blog é uma casa abandonada. Vazio como minha alma.
(Dáuvanny Costa)
(Dáuvanny Costa)
sábado, 17 de junho de 2006
Sou antes uma exaltada
"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade…"
(Florbela Espanca)
(Florbela Espanca)
sexta-feira, 16 de junho de 2006
Calando a palavra
Hoje vi uma criança no Semáforo. Sete anos. Passeava entre os carros; me disse que o Semáforo é seu segundo lar desde os três anos. Pouco mais que um bebê, uma criatura pequena e dócil, indefesa escondida apenas pelo olhar triste e solitário.
Que ação social pode consertar a irresponsabilidade de pais que procriam sem conceder um mínimo de dignidade à sua prole? Que exploram mãos inocentes em mendicância e vendas de bugigangas?
Que ação social pode reverter a omissão da sociedade diante de um quadro pintado com cores tão tristes?
Que ação social pode segurar minhas lágrimas enquanto ouço essa criança que mal sabe amarrar seu par de tênis? Sua voz fraca e débil sai dos pulmões numa dor conformada. Vejo desesperança em seus olhos.
Parece-me fácil culpar políticos, culpar vizinhos, culpar os outros. Por isso culpo a mim.
Nossa responsabilidade é tentar. Tentar consertar o mundo. A responsabilidade não é conseguir; somente tentar: "E não vos conformeis a este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12:2).
Quem disse que precisamos esperar calados um novo porvir? Quem disse para não nos misturarmos aos problemas do mundo? Será ESSE mundo expressão da boa, agradável e perfeita vontade de Deus?!... A atitude sectária isolacionista de alguns cristãos contradiz a ordem do Cristo: IDE. Ide para ser sal e luz. No mundo, não fora dele; não na Jerusalém celestial, mas no mundo. Agora. Cristãos ou essênios? Jesus caminhou pela Terra e cuidou das dores. Essênios se escondiam pelas rochas, isolados.
Charles Finney afirmou que a tarefa do cristão era transformar o mundo. Pois bem! Como transformar sem participar? Onde está o espírito de ousadia que nos foi dado? Os crentes se tornaram egoístas, medrosos, preconceituosos, acomodados e isolados dentro das quatro paredes da igreja. Separatistas e alienados. O que Jesus condenava: hipócritas que simulam a vida em lugar de vivê-la; que se escondem por trás de promessas e chavões de prosperidade.
Não somos desse mundo, mas vivemos nele e precisamos dele. Artes, Cultura, Dinheiro, Legislação ou Medicina... não podemos viver sem esses valores. A esperança da glória basta a minha alma cansada, mas meus olhos não suportam a dor do mundo. Tampouco minha dor. Falo porque a palavra é criadora. A palavra é Deus: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1). Tomo cuidado com as palavras porque elas são Deus em mim, a manifestação dEle, Ele se manifesta por minhas obras e por minhas palavras.
Que ação social pode mudar nossos conceitos?
É tempo de revolução.
Hoje a palavra saiu para passear e encontrou uma criança pobre de olhos tristes. E a palavra calou-se.
(Dáuvanny Costa)
domingo, 4 de junho de 2006
Escrevo porque...
"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens."
(João Guimarães Rosa)
(João Guimarães Rosa)
segunda-feira, 29 de maio de 2006
quinta-feira, 25 de maio de 2006
LEGIÃO DE IDEALISTAS versus LEGIÃO DE HIPÓCRITAS

Passei dias lendo mensagens eletrônicas: manifestações, repúdios, solidariedade e indignação. Calei-me. Palavra alguma tem o condão de consolar uma alma. Há momentos em que a inutilidade reside nas palavras. Enquanto lia e excluía (e devo confessar, às vezes apenas excluía) as mensagens aludidas, uma palavra se infiltrava em minha mente: A palavra "hipocrisia".
Sociedade hipócrita que chorou lágrimas de carpideiras. Sociedade que sempre desprezou a Polícia. Policiais eram tidos como violentos, corruptos, rudes, incultos e inúteis. Sociedade que defendeu Barrabás inúmeras vezes enquanto vilipendiava seus salvadores, seus anjos protetores. Anjos que saem de seus lares sem certeza de regresso; que deixam filhos, mães ou cônjuges amados esperando angustiados.
Essa mensagem não tem a intenção de emocionar ou "tocar o coração", quem me conhece sabe que não sou adepta de tais artifícios; escrevo tão somente para me manifestar da forma que melhor sei fazer: usando a palavra.
Foi um final de semana de guerra e dor. Mas para quem?! Circularam centenas de e-mails e o mais absurdo é que algumas pessoas usaram de um momento tão dramático e doloroso para fazer política; para defender seus partidos ou candidatos. Lamentável o grau de indignidade a que uma nação pode chegar. Há tempo para todas as coisas, já escreveu Salomão; o final de semana era um tempo de silêncio. Tempo de olhar para os homens além das camisetas pretas, das balaclavas, das boinas, dos quepes, das fardas, das divisas, das patentes, dos coturnos e das armas. Tempo de olhar para o homem que sofria em silêncio a dor da perda de um companheiro. Tempo de saudade. Era tempo de pensar em cada família, em cada mãe, cônjuge e filhos dos guerreiros feridos - mortalmente feridos. Guerreiros que se mantiveram em pé até o último momento - como é natural em heróis. Guerreiros que viveram (e infelizmente morreram) por um ideal, guerreiros fiéis à consciência, à lei e à missão que receberam. Missão de defender, até o último suspiro, uma sociedade indigna deles.
Sociedade hipócrita! Hipócritas que amanhã novamente vilipendiarão seus heróis.
O Estado de insegurança é conivente com o estado de descaso. As autoridades aprenderam com louvor a lição de sugestionar as massas e a arte da manipulação. As mãos que empunham canetas para formular leis lenientes também estão manchadas de sangue inocente.
Malditas sejam as leis que ultrajam a moralidade e a dignidade, malditas sejam as mãos que empunharam (e empunham) armas para ferir justos, malditos sejam os animais que celebraram aquelas mortes; todavia, bendito seja o solo regado pelo sangue heróico desses homens. Não apenas os homens que tombaram nesse final de semana, mas em todos os anteriores a esse e em todos os posteriores. Que esse sangue faça brotar sementes - sementes de justiça. Que nasça uma nova sociedade; sociedade solidária não apenas quando está revoltada, mas principalmente quando não está, e não está porque homens e mulheres estão combatendo anonimamente por ela. Homens que recebem soldos miseráveis para morrer.
Seus passos deixam, fundo na terra; suas marcas deixam, indeléveis em nós. Ficamos mais pobres, mais fracos e menores.
Hipócritas! Que buscam notoriedade quando deveriam buscar soluções. Hipócritas que fazem política quando deveriam fazer orações. Hipócritas que falam sem parar quando deveriam calar e sentir a dor verdadeira que estamos sentindo. Hipócritas.
Há quem diga que a mídia e a sociedade finalmente reconheceram o valor da Polícia. Hipócritas! Até quando? Até o próximo escândalo político? Até começarem campanhas - e usarem esse fato lamentável como trampolim? Até o próximo jogo de futebol? Até que a sociedade, induzida pela mídia, considere "excesso" a atuação da Polícia e se compadeça, novamente, de Barrabás? Hoje pululam poesias em homenagem à Polícia, mas até quando?!?!
Todos os dias um Policial tomba combatendo o crime - anônimo como esses tantos anônimos que tombaram de uma única vez. O que choca a sociedade não é a morte nem a dor. São os números. Destarte, também multiplicaremos por mil e um cada Policial, desde a Força Pública, que não desertou, combatendo a solidão, o frio, a madrugada, o silêncio, o mal e, por fim, a morte. Não morreram, apenas partiram antes.
Hipócritas! Também eram suas as mãos que seguravam as armas que mataram os heróis. Finalizo.
(Dáuvanny Costa, após os horrores de maio de 2006)
sábado, 13 de maio de 2006
Que a dor de hoje perdure
Estou indignada. A rua de minha casa está bloqueada. Os ataques à Polícia não param de acontecer.
Estou indignada.
Estou indignada por 30 valentes tombarem como mártires; por sentir a dor de suas famílias, por chorar com eles, por desmoronar.
Minha indignação, entretanto, NÃO ESTÁ atrelada a esse fato - de hoje; está atrelada à falta de moral de homens corruptos e desavergonhados que roubam cotidianamente nossas esperanças e nossas certezas.
Todos os dias um bravo tomba no cumprimento de seu dever - e isso, por si só, já deveria nos indignar e nos diminuir. Entendo e compartilho a indignação que acometeu a população hoje; mas deveria ser indignação de TODOS OS DIAS, de todas as perdas, de todas as injustiças. Deveria ser, pois toda pequena dor é a representação da dor do mundo.
Não estou em segurança se meu semelhante está inseguro. Não estou feliz se meu semelhante está infeliz. Não estou forte se meu semelhante está fraco. Não sou justa se ainda há injustiça. Não sou boa se ainda há maldade.
Para a Imprensa e o Governo são somente números. Todavia, não para nós. Não para quem está 'do lado de cá'; quem sente as dores de feridas abertas, porque, de fato, lágrima não cicatriza.
Minha indignação é tristeza mascarada, é dor e impotência diante de situações tão lamentáveis. A tristeza me domina, tristeza de todos os choros, de todas as lágrimas, de todas as perdas.
Tristeza porque amanhã se contabilizam números e as famílias nunca mais se encontram, nunca mais serão as mesmas; e, doravante, tantas vezes se calarão sem forças, deixando as lágrimas rolarem.
Tristeza porque quase não vejo diferença entre os bandidos que disparam armas e os bandidos que criam leis lenientes.
Que a dor de hoje perdure cada vez que a vida de um cidadão decente seja ceifada (e isso acontece todos os dias). Que a dor de hoje não termine amanhã.
Cobremos soluções, dignidade e respeito.
Ora me calo porque também preciso deixar rolar as lágrimas. De ontem. De amanhã. De sempre.
(Dáuvanny Costa)
Versão Italiana - publicada no Site Italiano "O ponto": Sono Indignata
segunda-feira, 8 de maio de 2006
Só hoje
quarta-feira, 3 de maio de 2006
Obrigada, senhores parlamentares!
Obrigada, senhores parlamentares, obrigada!
Obrigada por nos mostrar a diferença entre viver e sonhar; e hoje vivemos e já não sonhamos.
Obrigada por 500 anos nos emudecendo, nos amordaçando e atando nossas mãos, que hoje, atrofiadas, já não lutam. Vocês nos ensinaram passividade.
Obrigada pelo (in)Digesto exercício da cidadania, em que comparecemos obrigados. Muitos obrigados!
Obrigada pelo AI 5; e agora, pelo AR 15; já nos sentimos encapuzados, seqüestrados, presos e vítimas dessa democracia; isso nos ensina mansidão.
Obrigada por permitirem que os melhores, entre nós, sejam, de nós, furtados, isso nos livra do egoísmo (e da dignidade).
Obrigada pela enfermidade da saúde pública, assim sabemos que não somos os únicos a padecer sem remédio.
Obrigada, senhores parlamentares, obrigada!
Obrigada pela banalização da violência, que nos leva a nos culparmos, e não a vós. Isso nos ensina a humildade.
Obrigada pelos direitos humanos, que não são para os humanos direitos, e isso dizima nossa moral, nos ensinando que ser honesto, nesta terra, nada vale.
Obrigada pelo grande amor que têm aos animais, pois nos tornam cães ou asnos, nos fazendo quase esquecer que um homem sem direito não é indivíduo.
Obrigada pelos salários que nos pagam; e sempre acabam antes de o mês ter terminado. Nos ensina a economia.
Obrigada por se preocuparem tanto com nossas crianças, a tal ponto de não puni-las quando agem mal.
Obrigada por tirarem os melhores anos de nossas vidas, nos furtando do saber; e terem feito de nós corpos sem alma. Isso nos ensina a não vivermos.
Obrigada, senhores parlamentares, obrigada!
Obrigada pela fome numa terra tão rica, nos ensinando que as aparências, realmente, enganam.
Obrigada pelo “impeachment”, em que fomos os heróis, os ‘caras pintadas’... nos ensinou a ilusão do poder.
Obrigada por nossa ansiedade e agonia enquanto nossos amores não voltam para o lar; e enquanto andamos de um lado para o outro assustados, isso nos ensina a esperar.
Obrigada pela liberdade nos programas de televisão, onde cada um diz o que quer, e nossos ouvidos viram penicos. Nos ensina a tolerância.
Obrigada pela mentira bem contada de que somos os donos do poder. Obrigada por essa injeção de (pseudo) ânimo no nosso povo.
Obrigada por divertir este mesmo povo, nos dando festas e feriados (que se acabam) e voltamos à vida normal, com mais dívidas e dores de cabeça.
Obrigada, senhores parlamentares, obrigada!
Obrigada por esse sentimento de indignação que nos invade, nos transformando quase nos animais que querem que sejamos. Ah! Isso sim nos torna gente!
Obrigada pelas pizzas que arrotamos (mas não comemos) a cada CPI armada; a cada novo escândalo; mas por favor, manda de calabresa com suco da próxima vez, pois estamos cheios de frango e de coca. Ah! E menos cebola, não queremos mais chorar.
Obrigada pelo assassínio da nossa língua, quando nos dizem que ‘a nível de’ Brasil, a inflação é ‘imexível’. Nos lembra que estamos envelhecendo.
Obrigada por roubarem nossos moços, nossos filhos, nossos cônjuges, nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos. Obrigada por nos roubarem o direito à fé!
Obrigada, senhores parlamentares, obrigada!
Obrigada pelos vultosos aumentos de vossos salários; faz-nos sentir patrões generosos.
E... obrigada, finalmente, por nos fazerem perder tempo escrevendo sobre vós. Isso nos dá um sentimento de valor. De importância e de urgência.
O que é importante?
Vida, comida, casa, segurança, emprego, educação, saúde. E três coisas que nem todos vós conheceis: moral, dignidade e cidadania.
O que é urgente?
Que Vossas Excelências (em maiúsculo, pelo respeito) cumpram seus papéis de mandatários, nos ouvindo.
E, por favor, desculpem-nos por este cansaço e desolação.
(Dáuvanny Costa)
Aniversário - de Pessoa e meu
"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!... (Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos. DURO. Somam-se-me dias.Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!..."
(Aniversário, Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)
Grifos meus.
Aniversário é qualquer dia em que você se lembra de prosseguir.
Hoje já não faço anos. Duro... e agradeço a todos os que me ajudam nessa jornada, de algum modo - às vezes apenas com a esperança.
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!... (Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração! Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos. DURO. Somam-se-me dias.Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!..."
(Aniversário, Fernando Pessoa/Álvaro de Campos)
Grifos meus.
Aniversário é qualquer dia em que você se lembra de prosseguir.
Hoje já não faço anos. Duro... e agradeço a todos os que me ajudam nessa jornada, de algum modo - às vezes apenas com a esperança.
terça-feira, 11 de abril de 2006
A ciência das crianças
Sempre que convidada a ministrar uma palestra, penso: “Que tenho a dizer? Convidarei um dos 'meus' bebês para substituir-me. Há mais ciência nas crianças”.
Imagino o Guilherme, com sua "grande" experiência - de cinco anos - dizendo: "Tia Dáu, pisei na pedrinha, a pedrinha rolou; pisei no coração, ele se apaixonou por você". Mestre em comunicação. Articulador das palavras. Derreto-me.
A Giovana, já mais "madura" em argumentação - do alto de seus oito anos - dispara, despretensiosa: "Te amo do tamanho da terra até o céu, tia". Ponto. Argumentar mais o quê?! Essa eu perdi. Ante tal declaração, as colocações pronominais perdem o sentido. Relevo a próclise. Os abraços da Graziela abraçam-me a alma, enquanto grita com todas as forças possíveis de seus jovens pulmões de bebê: “Eu te amo muuuuuuito!!!!”. Empatamos. Amo também. E amo mais.
Há também as questões. Ocorre-me, agora, aquela proposta pela Emanuely, que em seus três anos, já formulava questões intrincadas: "O que o tomate foi fazer no banco?" Desarma-nos em gargalhadas.
Algumas já cresceram. São crianças em adultos. A embalagem mudou, mas o conteúdo permanece (espero sejamos todos assim). Olho para a Emily e ainda posso ver a criança em seus olhos, tentando se desatar das coisas de criança; aflorando para a vida adolescente que começa. Canto com o poeta: “Emily, hoje você faz treze anos (...)”; não é possível pedir para não crescer; hoje você faz treze anos e não posso deter o tempo, apenas orar para que Deus abençoe sua estrada e firme seus passos no caminho que é dEle.
Algumas dessas crianças são mais sisudas, introspectivas, agastadas; primeiro observam. Digam-me se isso não é sabedoria? São audiência para qualquer platéia exigente. São Davi e Jônatas - juntos. São o Jesus menino rodeado de doutores.
Eu? Oras! Sou um poço de incertezas. O advérbio "talvez" - que amo - é minha única ciência. Sou circunstâncias, como escreveu Ortega Y Gasset. Eles não: são pureza e certeza. São mais reais. Aprendi a olhar a vida pelos olhos marejados de quem procura respostas; eles ainda observam-na pelos olhos inocentes de quem tem as respostas. Respostas para tudo. Respostas que não respondem nada - é verdade; mas que conseguem a coisa mais difícil: arrancar um sorriso espontâneo.
Crianças estão sempre a surpreender-nos. Arrancam-nos da tribulação de vidas ocupadas para nos mostrar que sorrir é o melhor remédio e amar é a melhor escolha. Escolha que implica renúncia a nós mesmos.
Eu estudo, leio, viajo, discurso, ouço, defendo, escrevo, convenço, e ainda assim tenho sempre muita coisa para aprender. Eles? Só vivem e amam. Essa é sua ciência.
Alguém pode argumentar que amor não é ciência. Lamento. Não posso explicar nada para adultos. Não tenho paciência para tanto (minha alma, nesse ponto, teima em ser criança). O Pequeno Príncipe, de Exupéry, tem razão: "As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar a toda hora explicando". Bem, minha esperança então desvanece, porque noto, em tempo, que eles não farão palestras para adultos. É melhor me armar (ou seria desarmar) e ir.
O doze das crianças só ocorre uma vez por ano. Depois, o clima de festa cede lugar à monotonia e às ocupações cotidianas; mas elas continuam presentes, esperando um olhar mais demorado, esperando que olhemos para elas com olhos de sentir, com aquele olhar que olha além do que pode ser visto. Elas continuam presentes: traquinas, levadas, tímidas, desconfiadas, ingênuas, dependentes; esperando, todas elas, apenas nosso olhar de aceitação. Esperando ser amadas. Em todos os dias e não apenas em um dia de outubro. Dia que termina cedo.
Agora preciso aprender a não perguntar tanto ou eles podem acabar perdendo a paciência comigo...
(Dáuvanny Costa)
domingo, 9 de abril de 2006
Quero e não quero
Não acredito mais na igreja. Estou separada dela. Estar "separado" da igreja, porém, não é estar separado de Cristo (mesmo porque Cristo não está na igreja). Meus olhos permanecem no Autor e Consumador da minha fé; mas já saíram da igreja há muito tempo. Em momento algum devemos pensar que a igreja representa o Senhor. Indigno-me. Indigno-me, contudo, com essa "igreja" venal, inconsequente, irresponsável, mercadejante, que vende a fé acenando com promessas mirabolantes de cura e prosperidade; quando Ele, de fato, nos ensina a carregar cruzes e renunciar a nós mesmos.
Paradoxos do presente século.
Estou cansada da igreja. Igreja que não salga. Descri dela como descreio do homem (homem aqui entendido como ser humano, por óbvio). Todavia, quanto mais estou em silêncio, mais me torno íntima do Senhor. E quanto mais busco a Deus, se torna inevitável: tenho de estar longe dos homens - que têm ofício de sal e não salgam, que pregam mais a si mesmos do que a Cristo.
Estamos vendendo a alma - contraditoriamente em nome de Deus. Tempos temerosos. Tempos de lamentações e, como meu profeta preferido (Jeremias) eu lamento. Lamento que não conheçamos a nossa alma, porque somos guiados pelos sentidos corporais; não entendemos o que é espiritual e vendemos a alma tão barato. Como escreveu Antônio Vieira devemos "aprender sequer do demônio a avaliar e estimar nossas almas" (Sermão das Tentações).
Os discípulos achavam que Jesus era o ‘salvador da pátria’ e os judeus O amaram e O seguiram por causa disso. Ele, pensavam, os libertaria da opressão de Roma, assim como havia libertado os seus pais da opressão do Egito. Antes, escravos do faraó; agora, escravos ainda. Escravos dos tributos, de César e da lei.
Mas Jesus não agiria assim! Ele não veio para isso.
Eles queriam vingança e Deus queria amor.
Eles queriam poder e Deus queria obediência.
Eles queriam libertação política e Deus queria libertação do pecado.
Eles queriam guerra e Deus queria a morte. Para vencê-la e ganhar a vida.
Quando descobriram que o reino de Jesus conduzia ao sofrimento, esconderam-se. Não era um trono que esperava por Ele. Era uma cruz. E assim é a igreja de hoje.
Dois milênios e ainda se procura o mesmo Jesus. O Jesus dos milagres.
Uma das coisas que Dostoiévski tem como objetivo mostrar em Os Irmãos Karamazov (a respeito do Grande Inquisidor) é que o paternalismo pode propiciar as condições de liberdade, mas pode, também, retirar a mesma liberdade: "Vê aquelas pedras naquele deserto árido? Muda-as em pão e atrás de ti correrá a humanidade, como um rebanho dócil e reconhecido, tremendo, no entanto, no receio de que tua mão se retire e não tenham eles mais pão".
A igreja não adora mais o Abençoador, adora as bênçãos. Estou separada dela. Minha fé é maior.
Fé esta que não está presa a promessas e milagres. Está presa com Ele; ainda que Ele me mate Nele esperarei. Faço minhas as palavras de Jó. Faço minhas as minhas palavras.
(Dáuvanny Costa)
quarta-feira, 29 de março de 2006
É preciso esquecer quem somos?
Hoje é só isso.
É só clicar no título e ler. Ou ler o título e clicar.
Antigo... Mas atual. Ainda sinto o mesmo.
- Site: Data venia
É só clicar no título e ler. Ou ler o título e clicar.
Antigo... Mas atual. Ainda sinto o mesmo.
- Site: Data venia
quinta-feira, 9 de março de 2006
Mulher
Advogada, defende os que ama.
Médica, cura feridas.
Engenheira, constrói castelos.
Promotora, acusa quem fere seus princípios.
Bombeira, apaga fogos.
Poetisa, romantiza vidas.
Administradora, cuida da sua vida.
Filósofa, compreende.
Cozinheira, alimenta.
Vendedora, comercializa ilusões.
Pastora, zela e protege.
Escritora, tem muitas histórias para contar.
Mulher.
Cada mulher.
Toda mulher.
Paraíso e queda.
Mulher. Sem referências à outras atribuições que não essa: MULHER.
(Dáuvanny Costa)
Médica, cura feridas.
Engenheira, constrói castelos.
Promotora, acusa quem fere seus princípios.
Bombeira, apaga fogos.
Poetisa, romantiza vidas.
Administradora, cuida da sua vida.
Filósofa, compreende.
Cozinheira, alimenta.
Vendedora, comercializa ilusões.
Pastora, zela e protege.
Escritora, tem muitas histórias para contar.
Mulher.
Cada mulher.
Toda mulher.
Paraíso e queda.
Mulher. Sem referências à outras atribuições que não essa: MULHER.
(Dáuvanny Costa)
sábado, 4 de março de 2006
Ousar em fé
Meu coração está rasgado de alto a baixo, Senhor, para tocar o Teu. Procuro-O mesmo que a espera não termine nunca. O coração está pronto. A alma está pronta. Abunde est! *. Todavia ainda não desviei os olhos de mim e permaneço lambendo minhas feridas como um cão machucado.
Os crentes honestos oram por 'fé verdadeira': sua carne deveria estremecer só em pensar nas implicações que isso traz - eu sei.
(Dáuvanny Costa)* Basta! (Sêneca)
Forças
"Algumas forças que impulsionam a vida humana não são explicadas apenas pelos instintos de preservação da vida ou da espécie.
Qual força leva uma mulher a persistir no seu amor maternal?
Qual determinação faz o pobre resistir trabalhando honestamente quando há tantos exemplos de gente que enriquece injustamente?
De onde vem a esperança do pai quando antecipa um futuro melhor para seu filho?
Por que a alegria da mãe da criança excepcional quando vê sua filha sorrindo?
De onde a viúva tira seu esforço em continuar sorrindo para não contaminar suas amigas com sua tristeza?
Como o crente, apesar de todo o mau testemunho da religião, continua amando e servindo a Deus com todo o seu coração?
Essas forças, motivações ou ímpetos não são, digamos, normais. Comumente usamos a expressão de que “há um espírito movendo essas pessoas”."
(Ricardo Gondim, aqui).
Qual força leva uma mulher a persistir no seu amor maternal?
Qual determinação faz o pobre resistir trabalhando honestamente quando há tantos exemplos de gente que enriquece injustamente?
De onde vem a esperança do pai quando antecipa um futuro melhor para seu filho?
Por que a alegria da mãe da criança excepcional quando vê sua filha sorrindo?
De onde a viúva tira seu esforço em continuar sorrindo para não contaminar suas amigas com sua tristeza?
Como o crente, apesar de todo o mau testemunho da religião, continua amando e servindo a Deus com todo o seu coração?
Essas forças, motivações ou ímpetos não são, digamos, normais. Comumente usamos a expressão de que “há um espírito movendo essas pessoas”."
(Ricardo Gondim, aqui).
sexta-feira, 3 de março de 2006
Cântico VI
"Tu tens um medo: Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno".
(Cecília Meireles in "Antologia Poética", Editora Record)
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno".
(Cecília Meireles in "Antologia Poética", Editora Record)
quinta-feira, 2 de março de 2006
Navegar é preciso, gentileza também
Ultimamente não tenho enviado e-mails, mal os tenho lido (sempre com atraso - exceto quando são de trabalho ou família) cansei do "encaminhar", peguei birra do "undisclosed-recipients", configurei meu Outlook para avisos e afins caírem na lixeira, meus e-mails têm antispam. Por quê? Pela impessoalidade desse mundo cibernético; que soa, ao meu espírito gentil, como absoluta falta de educação e gentileza. Salvo em situações específicas, as pessoas não desligam o telefone na cara das outras, mas na internet é isso o que acontece.
A internet permite a falta de cordialidade e educação?... Há pouco tempo entrei no Orkut, e confesso: fico desalentada com aquele mundo de spams e mensagens "genéricas", impessoais e inúteis, em que os remetentes desejam 'marcar ponto' (embora, eu pense que o objetivo seja chamar a atenção). De igual modo fico desalentada quando, pessoalmente, deixo um scrap na página de alguém e nunca recebo resposta. Paraíso da deselegância e da indiferença!
Sinto-me rejeitada e ignorada. Isso me diminui. Arre! Que hoje não estou com paciência para circunlóquios. Quero ser objetiva. Chego ao absurdo de pensar que educação envolve algum tipo de interesse, ou seja, sem interesse algum, cessa a educação. Convenhamos, há algo mais grosseiro do que ignorar alguém?! Reconheço que a maioria faz isso por falta de cuidado ou de atenção e não, necessariamente, por grosseria. É mais um "não se importar". Reconheço, de igual modo (e folgo em saber), que muitos compartilham da desolação que ora exponho.
Eu já tinha boa educação antes da internet, antes dos e-mails e scraps - talvez isso tenha ajudado - sempre disse obrigada, por favor e com licença. Alguém pode pensar que sou ultra-sensível; mas não sou. E estou desalentada. Talvez esteja exagerando. Mas quando leio textos na internet e scraps (esses sites de relacionamentos são o paraíso do assassínio à língua portuguesa) meu desalento sai pelos póros. Onde estarão os parágrafos, acentos e pontos? Onde estarão as letras naquele mundo de "X"???
Tenho intimidade com a internet, gosto de sua utilidade e funcionalidade. Gosto (salvo exceções) do que ela oferece, mas me cansa tal degradação da gentileza e da gramática. Dia desses desisto do Orkut e chats. Fico somente com a costumeira navegação, até mesmo porque, "navegar é preciso, viver não é preciso" (Fernando Pessoa), mas até lá, desolo-me.
(Dáuvanny Costa)
quarta-feira, 1 de março de 2006
Ser compreendida...
"Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se". (Fernando Pessoa/Bernardo Soares in Livro do Desassossego).
Ocorreu-me: Será que alguém pensará que esse Blog é uma autobiografia?!!! Isso seria estranho; porque certamente há momentos de "vazamento" nessa página (tela, para ser mais precisa). Em alguns momentos não contenho as palavras de meu ser, que saltam sobre o teclado e ganham vida por si próprias; mas o Blog (Blog é um nome estranho) não é autobiográfico. Enorme porção que nasce aqui, nasce para ficar aqui, sem qualquer relação comigo. Era isso que tinha para escrever agora pela manhã.
[...] E se pensarem; e o que pensarem... que tenho com isso?!... Ser compreendido é prostituir-se, escreveu o Poeta.
(Dáuvanny Costa)
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