sábado, 29 de setembro de 2007

Não preciso de defesa

Recentemente recebi comentários acerca de meu modo de escrever. Comentários irônicos e agressivos. Interessou-me, sobretudo, porque nunca imaginei que dar atenção à gramática pudesse ser ofensivo aos meus destinatários. Isso se chama educação.
Procuro, obviamente, não usar uma linguagem rebuscada ou desnecessária, mas cubro o léxico português de carinho. Isso se chama estilo.
A situação supracitada surpreendeu-me. Não era algo que esperasse, no entanto, fiquei contente. Gosto de me sentir acima do nível da mediocridade. Isso se chama esperança.
Quanto aos meus posicionamentos teológicos manifestados no blog - ou fora dele: Graças a Deus ninguém comete crime por pensar. E eu penso.
Certamente, parafraseando Almeida Garrett, qualquer escreverá melhor que eu, poucos o farão com tanta alma. Isso se chama fé.
(Dáuvanny Costa)

Resistindo às mesmices

"Aconselho-te, pois, paciente leitor, a comprar um bilhete inteiro da próxima extração. Compra-o e rasga-o em pedacinhos. E lança-os aos quatro ventos do Destino. Verás o que é a sensação, verás como sacodes a alma dessa medíocre mesmice de sempre, e verás como vibras, como vives a vida!"...
(Mário Quintana)

A dúvida que corrói

"Disseram-me que Deus me ama, e ainda assim a escuridão, o frio e o vazio são tão grandes que nada toca minha alma. Terei eu errado ao me entregar cegamente ao chamado do sagrado coração?"
(Teresa de Calcutá)

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Livros - O Monge e o Executivo

São tecidos os melhores comentários para o livro 'o monge e o executivo'; naturalmente insaciável por conhecimento, não pude me furtar à curiosidade de lê-lo para tecer minhas próprias considerações.
O livro não é de todo ruim, muito embora deixe a desejar e a manchete seja muito melhor que a notícia. O autor repisa assuntos já tratados; visita e revisita a Bíblia numa obra pueril. O melhor da obra são as frases que James Hunter empresta de outros. Interessou-me muito a ênfase que o autor dá ao amor como fator de liderança. “Servir para liderar”, disse Aquiles em Tróia, e essa é a grande lição do livro. O ponto forte do livro é o capítulo 7 – último, aliás. 
Sintetizando, sejamos símplices como os monges e prudentes como os executivos... (paráfrase livre de Mt. 10.16).
No mais, o desejo de Jesus não era ser um líder. Nunca foi. Não aqui.
James Hunter não é grande escritor, apenas transmissor de idéias; notável mesmo é o livro ter ganho tanta repercussão.
(Dáuvanny Costa)

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Ilusões de Florbela

"Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e, como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos, despedaçou-se o meu para sempre. Podiam hoje sentar-me num trono, canonizar-me, dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade, que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje. Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor; falta-me tudo o que eu tinha dantes e que eu nem sei dizer-te o que era... É a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes".
(Florbela Espanca)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Minha fé não cansa mas se cansa

Cansei dos escritos de meu tempo.
Cansei da pseudo-intelectualidade, do vazio dos discursos, das opiniões sem fundamento, da leviandade e da vileza das sustentações.
Cansei também da falta de beleza nos escritos de meu tempo. Pior: cansei dos poetas, dos profetas e dos religiosos.
Cansei de agora. Cansei de antes. Cansei de tudo.
Cansei dos pregadores de hoje – com irrefutável razão, todavia, cansei também dos pregadores de ontem, das opiniões dos outros, do Cristianismo maculado e do esquecimento da Bíblia.
Cansei das teorias, das fórmulas, dos decretos e das máximas. Cansei, principalmente, dos chavões religiosos.
Cansei dos Macedo, dos Soares, dos Lucados, dos Sobel, dos Marcelos – e não se adiante em me chamar pretensiosa, mas cansei também dos Gondins, dos Caios, dos Luteros, dos Calvinos, dos Yanceys, dos Chucks, dos Lewis. Cansei de mim. Reconheço, admito e confesso tê-los lido e aprendido com estes. Cada um, à sua maneira, têm palavras que encantam.
Hoje, todavia, eu desejo mais, eu anelo mais, eu aspiro mais. Por mais contraproducente que possa parecer, aspiro o simples: a mensagem da cruz. Quero-a de volta. Quero voltar a ler a Bíblia com a simplicidade dos primeiros tempos, com a inocência das primeiras letras. Quero voltar a ter olhos de criança.

Cansei das certezas dos outros. Quero que a Bíblia me inunde – até o transbordamento.
Quero me livrar da religião. Quero Cristo em mim. Quero aquele evangelho de outrora. Sem promessas ou expectativas. Hoje, quando meus planos se frustram, minha fé tenta deixar-me. Ela me pede 'um tempo'. Meu espírito angustiado não tem forças para argumentar; a fé, então, me diz que não pode permanecer em espaço tão congestionado de dúvidas. As dúvidas, de tão densas, se tornam quase tangíveis. Peço à ela para permanecer, cito Agostinho, Lewis, Barth e Bonhoeffer. Leio, para ela, Spurgeon. Não convenço-a. Não convenço-me. Não sou eu.
Ele quer a mim, não quer o Agostinho que li. O conhecimento alheio, por mais célebre e profundo que seja, não foi gerado em mim. Não nasceu de mim. Preciso das minhas certezas. A fé, ao notar minha procura, se arrisca a ficar um pouco mais e tentar conviver com as dúvidas. Brado, como desesperada, que não a quero, que ela pode partir; mas pobre de mim (!), ela sabe coisas que não sei – na verdade, não sei nada – e ela me fere como um punhal, mas seu desejo, estou certa, é curar-me. Não entendo-a. Não entendo o Mestre por tantas vezes usar de um tratamento tão duro com uma criatura tão frágil como eu, tão cheia de incertezas e obscuridades – tão pequena. Talvez eu não o entenda porque cansei.

Hoje minha alma quer somente descansar e recuperar as forças para buscar as minhas certezas. Que, espero, sejam as dEle.
(Dáuvanny Costa)

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

terça-feira, 31 de julho de 2007

Verdades

[...] Então, olhei no fundo dos seus olhos doces e esperançosos e disse: 'sou uma mulher de muitas dores pelas feridas que sangram, por isso vivo intensamente cada minuto de prazer...'
(Dáuvanny Costa)

sábado, 7 de julho de 2007

Prezados Idiotas da Galácia

..."Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho. O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transtornar o evangelho de Cristo. Mas ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo: Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema. Por que, persuado eu agora a homens ou a Deus? Ou procuro agradar a homens? Se estivesse ainda agradando aos homens, não seria servo de Deus" (Gálatas 1.6-10).

"Anátema" pode ser traduzido por "amaldiçoado". Paulo, dono de personalidade colérica e zeloso da fé, não receava o emprego das palavras. O texto supra foi escrito/ditado aos Gálatas: "Ó gálatas insensatos", ele bradava. Bem poderia ter sido escrito em nossos tempos, com outras vestimentas: "Ó brasileiros insensatos" ou "Ó crentes insensatos", talvez. Insensatos por transformarem pregações em mega eventos; igrejas em mega templos e pastores em mega empresários.
Descreio da igreja atual, dos discursos vazios que despedem os ouvintes mais vazios ainda. Em lugar de abrigo, são centros de auto-ajuda, com a função precípua de fazer com que os ouvintes sintam mais culpa pela falta de oferta pecuniária que pela falta de caráter.
Quem inventou outro evangelho, deturpando o evangelho da graça? Um evangelho novo que lota templos, mas esvazia corações. A adoração ao Pai cede lugar à adoração a si mesmo: boa mesa, boa casa e boa vida.
Prezados Idiotas da Galácia, que exultam com o mercadejo da fé, que se calam diante do mercado do logro e do cinismo, que caçam bênçãos enquanto fogem do Abençoador. Que pregam a si mesmos, negligenciando o Deus pregado. Quem os fez tão céticos? Crendo apenas nas efemeridades desse mundo? Sua fé é vã.
Que coisa, como escreveu Vieira, é a conversão de uma alma senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo?
As palavras bastam para ouvidos néscios; para falar aos corações são necessárias obras.
(Dáuvanny Costa)

Espíritos desarmados

Vivemos, com efeito, dias um tanto bárbaros. Aposto, e não os perderei, os dois mindinhos como os que defendem isso que chamam de políticas de redução de danos eram favoráveis, por exemplo, à proibição da venda de armas legais. Uma das desgraças do país é esse progressismo de fachada. As armas que matam, como sabemos, são as ilegais. Proibir a sua venda corresponderia a conceder num bem abstrato que, na prática, nos afastaria, como provam o Complexo do Alemão ou o terrorismo do PCC, de uma resposta para o problema real.
(Reinaldo Azevedo)

sábado, 9 de junho de 2007

Carta de uma mãe à outra

"Hoje vi seu enérgico protesto diante das câmeras de televisão contra a transferência do seu filho, menor infrator, das dependências da FEBEM em São Paulo para outra dependência da FEBEM no interior do Estado.Vi você se queixando da distância que agora a separa do seu filho, das dificuldades e das despesas que passou a ter para visitá-lo, bem como de outros inconvenientes decorrentes daquela transferência. Vi também toda a cobertura que a mídia deu para o fato, assim como vi que não só você, mas igualmente outras mães na mesma situação, contam com o apoio de comissões, pastorais, órgãos e entidades de defesa de direitos humanos. Eu também sou mãe e bem posso compreender o seu protesto. Quero com ele fazer coro. Enorme é a distância que me separa do meu filho. Trabalhando e ganhando pouco, idênticas são as dificuldades e as despesas que tenho para visitá-lo. Com muito sacrifício, só posso fazê-lo aos domingos porque labuto, inclusive aos sábados, para auxiliar no sustento e educação do resto da família. Felizmente conto com o meu companheiro, que desempenha importante papel de amigo e conselheiro espiritual. Se você ainda não sabe, sou a mãe daquele jovem que o seu filho matou estupidamente num assalto a uma videolocadora, onde ele, meu filho, trabalhava durante o dia para pagar os estudos à noite. No próximo domingo, quando você estiver abraçando, beijando e fazendo carícias no seu filho, eu estarei visitando o meu e depositando flores no seu humilde túmulo, num cemitério da periferia de São Paulo... Ah! Ia me esquecendo: e também ganhando pouco e sustentando a casa, pode ficar tranquila,viu? Que eu estarei pagando de novo, o colchão que seu querido filho queimou lá na última rebelião da Febem."
(Romeu Prisco)

terça-feira, 15 de maio de 2007

Suspeitas

A linguagem é um sistema de equívocos.
(Dáuvanny Costa)

Sempre outono

Minha vida é outono,
folhas caídas, vento, tristeza úmida de tempo,
varredura de sonhos em folhas amontoadas;
primavera fugidia, harmonia escura de claridade,
que estação...
que está...
são folhas levadas.
Minha vida é outono.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Páscoa

..."Come chocolates, pequena,
come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida."
(Fernando Pessoa in Tabacaria)

[...] E eu, que me perco nas letras e mal conheço as palavras, desejaria apenas me converter - transmudando o poema de Pessoa - com a mesma verdade com que o mundo come chocolates.
(Dáuvanny Costa)

segunda-feira, 26 de março de 2007

Até Quando?!

Há dores que não podem ser superadas.
Há dores físicas que machucam o corpo. Há outras que ferem a alma. Não há medicamentos que providenciem cura; não há chás, xaropes ou poções mágicas para aliviar o peso sobre os ombros; o cansaço mental; as saudades que perfuram o coração quebrando-o em pedaços incontáveis como uma britadeira cruel; a espera; a ausência; as noites de insônia; a agonia disfarçada; o sorriso forçado do cotidiano; as perguntas sem respostas. Essa dor vaza em oceanos de lágrimas regando incertezas.
Até quando?!... é o grito desesperado que rasga nossas gargantas.
Até quando?... é o gemido que nossos lábios balbuciam.
Até quando se contabilizarão amanhãs não vividos?
Há dores silenciosas que se escondem pelos recônditos de nosso ser nos fazendo mentir ao coração covarde. Há outras que explodem, vulcânicas; derretendo-nos.
Essas são as dores em mim. Ambas. Dor da Beth Metynoski, da Lenice Café, do Jorge Damus, da Elizabeth Andrade, dos pais do João Hélio, da Rachel Costa, da Ieda Vale, da Maria Lopes, dor da esposa, da mãe ou da filha que moram na casa da esquina e passam por mim com olhos baixos e tristes sem eu nunca ter ousado perguntar o motivo. Dor de perdas estúpidas, de indignação, de impotência.
Dor pela banalidade da violência, pelo descaso com a vida humana - com a vida amada, pela imoralidade, pela falta de valores.
Dor pelo que está sendo e pelo que teria sido, pela corrupção e pela corruptibilidade, por ser um grão de areia tão pequeno, bem menor que o mar de lágrimas.
Dor pelas crianças que partem - e pelas que nascem; pelas mães à beira das sepulturas de quem elas ensinaram a andar; dor pelos filhos sem pais e sem respostas; dor pelas jovens esposas que não conjugam o verbo amar no passado.
Até quando assistiremos atônitos e silentes essas agressões à nossa humanidade?!
Até quando a indignação das massas só durará 24 horas?!
Como é concebível que bandidos de mira precisa, torturadores, estupradores, cruéis destruidores de vida, sejam considerados e tratados como crianças? Como é concebível que o Estado tutele com mais zelo os algozes que as vítimas? Como leis que supostamente deveriam proteger a sociedade a exponham ao ridículo, à insegurança e ao medo, sendo tão lenientes e inconseqüentes?
Procurei essas respostas. Ei-las. Em minha visão:
Nosso consentimento.
Consentimos na corrupção política, na venalidade judiciária, no 'jeitinho brasileiro', no político desonesto, na venda de votos, nas leis promulgadas, nos preços cobrados, nas grades nas janelas, nos alarmes nos carros, nas crianças em apartamentos, na nossa falta de poder.
Consentimos nos juros bancários, na falta de emprego, nos impostos exorbitantes, na falta de ética, nas mentiras comunistas, nos movimentos humanistas e estúpidos, no desrespeito às Polícias, no uso de drogas.
Consentimos com os programas de tv que fazem apologia a tudo - menos à moral, com a desigualdade, com as notícias dos jornais, com as filas nos hospitais, com a escola sem mestres, com a criança sem infância, com a fome dos índios, com a seca do Nordeste, com a farra do boi, com o desmatamento da Amazônia, com o roubo na casa ao lado.
Somos coniventes. Não agimos ou reagimos. Letargia coletiva que se apodera do povo, enquanto o sangue dos justos rega essa terra impura. O que fazer para mudar? Apontamos problemas, mas não soluções. 
Solução é o fim do "alto clero político".
Disse "alto clero", quando deveria ter dito "baixo meretrício". E nem preciso explicar o porquê.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 4 de março de 2007

Preocupação...

"O que me preocupa,
não é o grito dos violentos.
É o silêncio dos bons."


Martin Luther King

Utopia X Justiça

Utopia .... Não posso pensar em utopia sem lembrar o caput do artigo 5º da Constituição Federal: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:" ...
OMISSIS


Motivos para minha lembrança (do artigo 5º):

1) O País é um aglomerado de desigualdades de toda monta em que os que procuram os tribunais também são tratados desigualmente;
2) Garantir a segurança numa terra de ninguém é uma falácia sem tamanho;
3) Garantir a vida é uma audaciosa demagogia em um país que não leva a sério suas leis;
4) Garantir a vida também traz intrínseca a garantia à saúde - e eis que esta agoniza em praça pública;
5) Todas as demais 'inviolabilidades' seguem o mesmo caminho. PROCLAMAÇÃO. Garantia MESMO que é bom, NADA.
Infelizmente a justiça é uma utopia, mas a utopia, no fundo, é um fundamento da esperança. Sem esperança não passamos de um amontoado de células com uma vida sem sentido. Eduardo Galeano é brilhante (ao menos no texto que cito) quando compara a utopia ao horizonte: "a utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ele se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".
É possível o acesso à uma "ordem jurídica". Difícil, mas possível. À JUSTIÇA, lamento, não vejo possibilidade. Correção NÃO É justiça. Senão vejamos: O que é acesso à justiça? Conseguir ajuizar uma ação? Ou talvez recorrer ao Judiciário em posição de igualdade com os contendores e obter um provimento equilibrado? Uma decisão favorável, talvez? A isso chamo "ordem jurídica". E até mesmo para se conseguir isso são necessários alguns consertos:
1) A movimentação da máquina judiciária é INEXPLICAVELMENTE onerosa. Educação, por exemplo, que é atribuição do Executivo, custa mais barato para o particular do que o ingresso em juízo para a realização de uma simples cobrança: custas, honorários advocatícios e periciais, despesas etc.. Esses exemplos financeiros são apenas alguns dos obstáculos que as pessoas financeiramente pobres enfrentam ao tentar alcançar a "ordem jurídica".
2) Outro problema ao acesso é de cunho social; ainda que seja nas camadas mais humildes que ocorram os maiores índices de atentados aos direitos subjetivos dos cidadãos, poucos recorrem ao Judiciário. Talvez por desconhecerem seus direitos. Talvez por não crerem. Talvez.
Citei apenas dois obstáculos (há vários) que devem ser quebrados. Educando o povo acerca de seus direitos (precipuamente cidadania) seria um começo.
Enfim...eu sonho minha UTOPIA.
(Dáuvanny Costa)

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Subscrevo

Aquele "menor", bem maior do que o menino João, cujo corpo ele ajudou a espalhar pelas avenidas do Rio, vai ficar três anos internado. E depois será solto entre os meninos-João, por quem não se rezam missas de apelo social. Resta só a dor da família: privada, sem importância, sem-ONG, "sem ar, sem luz, sem razão". Sobre o assassino, há de se derramar a baba redentora rousseauniana: ele nasceu bom; foram os insensíveis da classe média, à qual pertencia o menino João, que o tornaram um facínora. Simbolicamente, a culpa é de quem morre. Também notei que os jornalistas ficaram um tanto revoltados com a polícia, que obrigou os bandidos a mostrar o rosto. Não há dúvida: terrível ameaça à privacidade. Era só o que faltava: trucidar o menino João e ainda ser obrigado a expor a cara... Que país é este? Já não se pode mais nem arrastar uma criança num automóvel e permanecer no anonimato? Sabem do que morreu o menino João? De um ataque virulento de progressismo. Para o menino João, não tem ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), não. Não tem ONG, não. Não tem música do Chico, não. O menino João já nasceu sem perdão. É o guri dos sem-Chico Buarque.
(Reinaldo Azevedo)

IGREJA (Deus não permita mais!)

Vi santos impassíveis diante da dor e do desespero de seus irmãos;
Vi santos discutindo por um molho de chaves e uma torneira, enquanto seus irmãos experimentavam a tristeza e o desalento - sim, eu vi!
Vi santos colocarem feixes de lenha no fardo de um irmão desanimado;
Vi santos desprezarem um irmão porque estavam num terno de griffe;
Vi santos comerciarem a religião no mercado do logro e do engano;
Vi santos mudarem sua personalidade porque mudaram de carro;
Vi santos proibirem os fiéis de se levantarem até para beber água na casa do Pai;
Vi santos mentirem;
Vi santos julgarem;
Condenarem;
Criticarem;
Vi santos desafiando a Deus, como se fossem os senhores dEle;
Vi santos negando auxílio;
Amor;
Amparo;
Compaixão;
Vi santos pregarem uma coisa e viverem outra;
Vi santos diante da oportunidade de serem úteis, virarem as costas;
Vi santos entronizando religião e superstição no lugar de Deus;
Vi santos abandonarem seus irmãos quando mais precisavam;
Vi santos prósperos meditarem dias se doariam uma cesta básica;
Vi santos negarem ajuda financeira quando tinham muito;
Vi santos dizerem a um irmão ferido que se esqueciam de orar por ele;
Vi santos zombando da dor;
Vi santos acusando um ser ferido;
Vi santos gordos;
Magros;
De barro;
De lata;
Vi santos tratarem alguém de acordo com as posses;
Vi santos duros e cruéis;
Vi santos saudarem a uns e a outros não;
Vi santos adorando ídolos;
Vi santos glorificando a Deus e esquecendo de amar seus irmãos;
Vi santos discursarem sobre dinheiro e poder, mas não falarem sobre Deus;
Vi santos esnobarem seus pais;
Vi santos satisfeitos com esse mundo;
Vi santos atônitos diante da perspectiva de perderem a vida;
Vi santos de lata;
De barro;
Vi esse barro fazer ‘birra’;
Só não vi o desejo de ser queimado
Para virar arte.
(Dáuvanny Costa)

Das coisas que não suporto

1) Perguntas pessoais;
2) Sentir-me pressionada;
3) Completarem minhas frases;
4) Perguntas óbvias;
5) Expressões fora de propósito;
6) Tocarem-me sem permissão;
7) Vãs repetições, vãs repetições, vãs repetições;
8) Contestações às minhas crenças;
9) Mercadejo da fé;
10) Cobranças – de qualquer espécie;
11) Tentativas de impressionar-me;
12) Filosofia de botequim;
13) Decretações em nome de Deus;
14) Fé barata;
15) Indecisões;
16) Falta de iniciativa;
17) Advogados criminalistas;
18) Políticos corruptos;
19) Políticos;
20) Invasão de privacidade;
21) Escreverem ou pronunciarem errado o meu nome;
22) Números – de qualquer espécie;
23) Pregarem a si mesmos e não ao Deus pregado;
24) Morosidade;
25) Inércia;
26) Demonstração falsa da inteligência que não se têm;
27) Insinuações ou indiretas – em suma, falta de objetividade;
28) Erros gramaticais;
29) Usarem meus textos sem citação da fonte;
30) Erros de ortoepia;
31) Falta de tato;
32) Críticas fora de propósito;
33) Covardia;
34) Pusilanimidade;
35) Acusações injustas;
36) Falta de objetividade – de novo;
37) Retorno a assuntos já resolvidos;
38) Incapacidade em se admitir erros;
39) Questionarem minhas certezas;
40) Gente que fala muito e não diz nada;
41) Gente que fala muito;
42) Crime e violência;
43) Humanistas;
44) Apelações religiosas;
45) Ressentimentos;
46) Hipocrisia;
47) Shows gospel;
48) Intimidade gratuita;
49) Fofoca;
50) Curiosidade pela vida alheia;
51) Banalização de milagres;
52) Reclamarem do volume do som do meu carro;
53) Tocarem meu cabelo;
55) Pré-julgamentos;
55) Indolência;
56) Desrespeito;
57) Imposição de opiniões;
58) Inépcia;
59) “Atoísmo”;
60) Esperar;
61) Indiscrição;
62) Música ruim;
63) Gente que não discerne anel de aliança;
64) Raciocínio lento;
65) Desocupados;
66) B a r u l h o;
67) Cantada barata (e burra);
68) Histeria;
69) Vadiagem;
70) Comunistas.

Há muitas outras coisas que não suporto, que não me alegram, que não fazem sentido. É uma lista básica, mas não claustra (numerus apertus) - e não está aberta à concessões. Em alguns momentos, confesso, não sou muito tolerante, embora tente.
Lista incorruptível. Mas não posso negar: muitas vezes eu relevo. O que não suporto mesmo é estar em mim.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 7 de janeiro de 2007

EU e Florbela

"Eu não sou boa nem quero sê-lo,
contento-me em desprezar quase todos, odiar alguns, estimar raros e amar um".
(Florbela Espanca)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Calvinismo

Se eu fosse Deus

Se eu fosse Deus... um dia apenas...
faria sorrir as crianças, sem afazeres ou preocupações,
as ocuparia com brincadeiras de sua idade.
Se eu fosse Deus...
alimentaria todos os famintos,
consolaria os tristes
e devolveria, a quem ama, os amores que partiram.
Não permitiria que uma mãe enterrasse seu filho,
não conceberia amanhãs não vividos a jovens viúvos,
eliminaria todas as guerras
e não deixaria que usassem meu nome em vão.
Por apenas um dia...
Proclamaria a tão sonhada paz,
incendearia os presídios - lotados -
e haveria um anjo em cada casa.
Por apenas um dia...
a África seria alegre e a alma dos brancos seria negra.
Por apenas um dia...
as lágrimas de dor seriam proibidas
e os pássaros cantariam o dia inteiro.
Se eu fosse Deus...
Interferiria na Terra, castigando e premiando
consoante meu senso de justiça.
Mulheres não seriam violentadas, apenas amadas.
Crianças não seriam espancadas e abandonadas.
Mães não seriam jamais humilhadas.
Se eu fosse Deus...
os homens de boa vontade: médicos, advogados,
professores, policiais, bombeiros, agricultores,
seriam respeitados e honrados.
Ocorre-me, porém, que jamais poderia sê-lO,
porque não daria minha vida
para salvar homens maus.
Eu advogo, mas não me envolvo;
Aconselho, mas não me entrego;
Ajudo, mas não renuncio.
Sonhos desvairados!
Alma blasfema!
A dor cega-me.
Acaso não sei que "certo príncipe" sondou sentar-se no trono de Deus?!
Julgo-me justa - mais que Ele! - mas não morreria - como Ele fez -
por uma humanidade corrompida.
Alma blasfema!
"Senhor! Ajuda-me em minha incredulidade!"
Permita-me não parar de crer.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 31 de dezembro de 2006

Novo Ano, Dia comum

Hoje, para muitos, é dia de rever conceitos e valores, fazer uma retrospectiva do ano que termina, pensar nos projetos futuros, fazer promessas e decretar vitórias. É um dia de festa e alegria em família - para muitos.
Para outros - tantos outros - é dia de lamentações. Lamentar pelo ano perdido e desejar que o ano infante traga melhores dias.
Para outros, ainda, é um dia comum. Um dia que chegará ao fim às 23:59 horas levando consigo o ano sobre as costas. É apenas um ano que passa, como as horas, os dias, os meses. Tempo após tempo.
Para mim é assim, dia comum. Nada de promessas. Nada de balanços porque nossa vida não é uma contabilidade tampouco um parque infantil. Um ano comum termina e outro se inicia: ciclo da vida e não escolha nossa.
Ganhei amigos no ano que termina, amigos que desejo manter no decorrer do ano que se inicia e dos anos seguintes. Amigos de quem aprendi a gostar e a respeitar, amigos de quem sinto saudades quando ausentes. Alguns conheço apenas pelos escritos, trocamos correspondências como amigos de infância; alguns conheço apenas pela voz, mas não há distinções nos sentimentos. Dos que são presentes, alguns se tornaram mais íntimos, a amizade se solidificou ganhando ares de eternidade. Um brinde a todos! Aos de perto e aos de longe, aos de sempre e aos de "às vezes", aos que olho nos olhos e aos que olho nos corações.
Alguns se afastaram, outros se perderam. Por motivos fúteis. Faz-me pensar em como nós humanos somos desatentos e desinteressados. Perdemos as pessoas que gostamos porque somos egoístas, mais preocupados em mostrar nossas próprias opiniões, em provar que estamos certos, do que em amar e demonstrar nosso amor. Pisamos nas pessoas apenas para mostrar que temos razão. E as pessoas se afastam e nos afastam delas.
Diante desse quadro, que posso desejar para um novo ano? Ora! O que desejo a cada novo mês, nova semana e novo dia: Mais tolerância entre os homens, mais amor entre os povos, mais paz entre os cristãos. Para um novo ano não desejo nada novo. Apenas que os homens despertem para novas realidades, unam-se em suas fraquezas e incertezas, sejam menos ríspidos em suas atitudes, aprendam a perdoar, a não serem amargurados, a não terem sentimentos mesquinhos uns pelos outros. 
Desejo que as pessoas falem menos e façam mais. Farei minha parte. Plantarei as sementes. Não desejarei nada que eu própria não possa fazer.
E que venha um novo ano de trabalho.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 17 de dezembro de 2006

Por que se escreve?

"A grande maioria escreve porque busca fama e dinheiro, por distração, porque simplesmente tem facilidade, porque não resiste à vaidade de ver o seu nome em letras de forma.
Restam, então, os poucos que contam: aqueles que sentem a necessidade obscura mas obsessiva de dar testemunho de seu drama, de sua infelicidade, de sua solidão. (...) São homens que não escrevem com facilidade, mas com dilaceramento. São indivíduos na contramão, terroristas ou foras-da-lei".
(Ernesto Sabato)

Escrever

Crise de abstinência.

domingo, 29 de outubro de 2006

Semeadura

Certa vez plantei um ipê. Minto. Plantei a semente e semente não é árvore, é perspectiva.
Desejei suas flores. Minto novamente. Desejei os sentimentos de Rubem Alves em seu "Os ipês estão floridos". Segundo o Rubem, ipês são 'do contra', fazem as coisas ao contrário, "as outras árvores fazem o que é normal - abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está prá chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio".
A comparação à sarça ardente fez arder minha alma. O fato é que plantei a semente. Após 4 ou 5 anos, o ipê cresceu e floresceu; pássaros se refugiavam e rejubilavam em seus ramos. Outro dia notei algo peculiar: um novo ipê brotava ao lado daquele. Teria alguém se compadecido da solidão florida de minha árvore?...
Eu não havia me dado conta de que os pássaros espalharam as sementes, centenas de pássaros espalhando centenas de sementes; e se apenas uma delas vingasse (como na parábola do semeador), aquela árvore não estaria mais sozinha.
Da mesma forma com os homens. Espalhamos sementes. O tempo inteiro. Resta-nos apenas refletir se são sementes de ipês que florescerão no inverno de algumas almas trazendo-lhes sol da primavera.
(Dáuvanny Costa)

Voto não tem preço

Gostaria de escrever algo sobre as eleições desse domingo, mas estou sem inspiração. Por estar fora de meu domicílio eleitoral - e fico contente por isso - justifiquei meu voto. Justifico: não tinha candidato - e não tenho.
Tenho motivos pessoais para não votar no candidato do PSDB; tenho motivos éticos para não votar no candidato do PT - partido da corrupção e da incompetência. Assistimos atônitos a um mar de lama, mas não obstante estarmos atônitos, nos mantivemos passivos. Espécie de "epoquística". Estamos alheios.
Enfim, voto não tem preço, tem conseqüências. Faço votos de que votem bem. Esquerda ou Direita não tem mais importância, visto que os partidos estão partidos; importante é votar em honestidade. Eu voto. Mas quer me parecer que na atual conjuntura sou voto vencido.
(Dáuvanny Costa)

Rui Barbosa: "E nessa destruição geral das nossas instituições, a maior de todas as ruínas, senhores, é a ruína da justiça, colaborada pela ação dos homens públicos, pelo interesse dos nossos partidos, pela influência constante dos nossos governos. E nesse esboroamento da justiça, a mais grave de todas as ruínas é a falta de penalidade aos criminosos confessos, é a falta de punição quando se aponta um crime que envolva um nome poderoso, apontado, indicado, que todos conhecem, mas que ninguém tem coragem de apontá-lo à opinião pública, de modo que a justiça possa exercer a sua ação saneadora e benfazeja."

À minha irmã

Não é uma regra, e não há que se generalizar, mas as pessoas que passam por maiores provações e dores são aquelas que mais se aproximam de Deus. A razão é simples: chegam ao ponto zero, se despojam de conceitos, adquirem maior maturidade e Deus pode agir em suas vidas. Elas se tornam maleáveis, Deus pode usá-las. Elas aprendem - de Deus - como usar a fé que lhes é dada. Tornam-se barro e podem ser trabalhadas entre os dedos do Escultor. A vida não é justa - claro que eu sei - mas o que passa agora, mesmo que sufocante, vai ajudá-la a compreender melhor aos outros e melhor a si mesma. Deixe Deus ser Deus. Ele não desistiu de você.
(Dáuvanny Costa in As muitas águas, 2002 - AbbaPress Editora)


Quero voltar


"Meu Deus! Dá-me cinco anos!
Me cura de ser grande!"
(Adélia Prado in Bagagem)

domingo, 8 de outubro de 2006

O que leio

Freqüentemente me perguntam quais livros leio ou recomendo. Decidi fazer uma lista de AUTORES, certamente não é exaustiva e não se trata de número claustro, somente um referencial - belo referencial eu completaria.

BÍBLIA. Philip Yancey. Sófocles. Shakespeare. Baudelaire. Fernando Pessoa. Florbela Espanca. Vinícius de Moraes. Dostoiévski. C.S.Lewis. Victor Hugo. Saint-Exupèry. George Orwell. Ernest Hemingway. Cícero. E.M. Cioran. Mark Twain. John Stott. Caio Fábio. Agostinho. Gogol. Paulo (o apóstolo). Tolstói. Jorge Luís Borges. Rubem Alves. Tournier. Milton. Larry Crabb. George MacDonald. Ayn Rand. Richard Bach. La Boètie. Morris West. Rudolf Von Ihering. Maria Garcia. Pontes de Miranda. Gabriel Garcia Marquez. Arthur Schopenhauer. Cesare Beccaria. Dietrich Bonhoeffer. Friedrich Nietzsche. Miguel de Cervantes. Sören Kierkegaard. Maquiavel. Honoré de Balzac. Gaston Bachelard. Brooke Newman. Aldous Huxley. Jack Miles. Orígenes Lessa. John Pollock. Homero. Gibran. Eça de Queirós. Goffredo Telles Jr. Machado de Assis. Érico Veríssimo. Antônio Vieira. Henry Nouwen. Tozer. Érico Veríssimo. Guimarães Rosa. Isak Dinesen (Karen Blixen). Orlando Boyer. John Donne. Carnelutti. Chesterton. Brennan Manning.

Como disse, não se trata de lista exaustiva e há muitos de que gosto e sequer foram incluídos aqui; mas 'espremerei' um pouco mais para os neófitos:
Sugiro a BÍBLIA, sempre; penso que nenhum autor compete com Deus; depois dEle, o mundo nada pode nos oferecer, conquanto nos brinde com bons escritores. Os estrangeiros devem ser lidos: Recomendo Victor Hugo (francês), Dostoiévsky (russo) e Shakespeare (inglês); vastos como é vasta a vida. Indicaria, dentre os escritores cristãos, o sempre brilhante Philip Yancey, o indescritível Brennan Manning, Henry Nouwen, Eugene Peterson, Stott e, certamente, C. S. Lewis. Bem, se nessa inefável lista de bons escritores ainda quiserem acrescentar poesia, sugiro John Donne e Fernando Pessoa (devem ser lidos com moderação). Brasileiros indico Machado de Assis, Augusto dos Anjos, Ricardo Barbosa e 'Clarice Lispector'. Se couber mais alguma coisa, sugiro Jack Miles, mas advirto: Leitura perigosa, quase imoral, no entanto, é fascinante flertar com esses pensamentos. Ayn Rand - indubitavelmente. É isso. Certamente deixei, imperdoavelmente, grandes escritores de fora, mas para começar, a lista é suficiente. Em outro momento farei menção a títulos. Paz-ciência.
(Dáuvanny Costa)

Um lapso

Os dias alongam-se...
Por vezes acho que já vivi demais; trago os olhos fatigados de tanto procurar e sou uma das jovens mais velhas de minha época.
Nada há mais sobre a Terra que me deixe empolgada. Não uso, todavia, nesse instante, a palavra 'empolgada' como sinônimo de 'entusiasmada', pois ainda trago Deus dentro de mim. E 'entusiasmo', em grego, significa exatamente isso.
Há horas em que o sofrimento é quase um amigo, porque é o único que não me deixa, me perseguindo intimamente, como pessoa ou sombra alguma jamais atreveu-se.
Abandono-me.
Em certas ocasiões faço referência ao livro de Jó, me identificando com ele. Declaro, cabisbaixa: "sou Jó"... sempre arranco sorrisos, às vezes risadas, e, como boa observadora que sou, teço considerações: De fato as pessoas são cruéis e se divertem com o sofrimento alheio. Em que canto de suas almas elas escondem a compaixão? Em que momento de suas existências inventaram que sorrir é mais proveitoso que chorar? Falo (escrevo) da igreja, mas não falo só dela. Insisto em falar da igreja porque todo homem deve amar, mas aquele que professa uma fé tem obrigação de amar. O que há de engraçado na vida de Jó?!
Não transbordo religião, por vezes sou cética - mas os desavisados jamais compreenderão isso. Creio com toda a minha incapacidade de crer. Alguns jamais compreenderão isso. Para entender os sentimentos de outrem é necessário mais que ver, é necessário sentir; por vezes é necessário andar um bom tempo sobre suas sandálias, como diz um provérbio antigo.
Vivo uma vida que não é minha. Finjo demais. Sorrio demais. Aconselho demais. E ainda espero a primavera. Viver não é isso, minha gente. Viver é outra coisa.
Já escrevi alhures que esse blog não é autobiográfico (basta passear pelos textos), sentimentos aqui são meus, outros eu empresto, mas isso os desavisados também não compreenderão. Não faz mal algum, empresto de Fernando Pessoa: Ser compreendido é prostituir-se.
(Dáuvanny Costa)

Meu Deus, me dê a coragem

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar."

(Clarice Lispector)

CARTA ABERTA AOS PEQUENOS

Meus pequenos,

Essa pode ser a última carta que escrevo-lhes.
Não é nenhuma data especial. Não é seu aniversário, dia das Crianças ou Natal. Tampouco, meu aniversário. Não é um dia de grandes notícias. A vida ainda se arrasta, sorrateira; a dor ainda fere meu coração; ainda não ganhei os milhões de dólares esperados, e as lágrimas (que comovem vocês desde que eram bebês) permanecem teimosas. O amor que nos une, no entanto, sempre é fato comemorativo. É sempre novo.
Hoje, nessa mesa abarrotada de papéis, fixei o olhar nos rostinhos lindos que a enfeitam e não pude deixar de sentir saudades. Saudades dos momentos juntos - e saudades, principalmente, do que eu não vivenciei.
É importante que vocês entendam o que significa saudade: Há alguns anos, o tio Eduardo trabalhava longe de casa, e havia dias em que a saudade que sentia dele, quando o sol se punha, era tão intensa que não podia esperar sua chegada. Meu coração ficava como que suspenso no ar, ansioso. Havia dias em que ia ao seu encontro no trabalho e enfrentava horas de viagem - apenas para vê-lo mais cedo.
Hoje, como cotidianamente, essa saudade foi sentida - por ele - e por vocês. Ante a impossibilidade de vê-los nesse momento e apertá-los de encontro ao meu coração, eu queria que soubessem do amor que sinto; soubessem que desejaria gastar todos os meus sábados com vocês; sem TV, sem trabalho, sem telefone, sem livros e sem sombras.
Um dia, quando forem grandes, meus pequenos, capazes de tomar suas próprias decisões e escolher os seus caminhos, espero que em seus corações conservem as crianças lindas que são agora. Que sejam homens e mulheres íntegros e éticos, que lutem por seus ideais, mas que permaneçam puros. Vivam ilimitadamente a liberdade de serem vocês mesmos. E amem ilimitadamente; até a última gota.
Nesse momento, bebo o costumeiro chá, e então me lembro de uma bebê (dois anos), que mal conseguia segurar sua caneca, sentadinha em um colchão enquanto me fazia companhia, soprando seu doce chá. Lembrança essa que faz surgir um sorriso em meus lábios. Essa bebê cresceu - assim como meu amor por ela e pelos que vieram após ela. Também me lembro de outra bebê (quatro anos) que "fugia" de chá, "não gosto de chá", ela dizia emburrada; e isso arranca uma gargalhada de mim. São lembranças doces. Mas hoje não quero escrever apenas sobre lembranças; quero escrever sobre esperanças.
VOCÊS ME DÃO ESPERANÇA. Quando olho para vocês, não tenho dúvidas de que o céu é real. E a vida quase faz sentido.
Sou uma abençoada.
É uma frase que espreme meu coração e o faz sangrar como uma uva, mas eu a disse em voz alta. É evidente que não podem entender, meus pequenos, mas isso faz de meus olhos um manancial.
Peço, porém, que Deus me conceda forças para repetí-la até que minha mente descanse e meu coração seja consolado. Vocês são anjos que Ele me emprestou e que me dão um vislumbre do paraíso nesse mar de sal. Vocês - e ele, para sempre - me apresentaram o Paraíso e me fizeram uma pessoa melhor. O segredo contido nessa mensagem é o que me faz suportar conviver com os medíocres. E sobreviver.
Sou uma abençoada.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 1 de outubro de 2006

A Ética deles

Pelo 1º de Outubro - Eleições:

É tarde! Perdi minha ética.
Madrugada alta
altas horas de solidão
em que sigo acompanhando a chama
que me chama e serpenteia.
Respiro os pecados do mundo
num imundo axioma que me toma
e choro sem poder dormir.
Nas favelas, nas cadeias, no senado,
por todo o lado há culpados,
há inocentes.
Ainda que o mundo seja injusto
há sempre um custo para a verdade.
Lavo minhas mãos como um Pilatos
busco culpados sem querer de fato achá-los.
Onde está minha ética?
Se estou cética e não quero nem pensar em Deus?
Quanto mais nos meus que me esperam voltar ao lar
às origens do meu ser e humildade
obscurecidas pelo poder e autoridade
e essa caixa de maldades
que abriu-se em mim...
conheço o justo e só pratico o injusto
desde que me vendi em troca de uma cadeira
elétrica, porém faceira, que me seduz.
Fizeram-me procuradora me entregando confiança
que ignoro e não procuro nada
a não ser minhas vontades
e em cada azo de fazer o mal eu me deleito.
Vendi-me por trinta moedas.
Vendi minha honra e dignidade,
tornei-me Judas, mas cansei de o ser
- e não ser.
Minha esperança é vã.
Quero a manhã de sol risonho,
quero de volta o sonho que me pôs aqui,
quero de volta meu sentimento
no sussurrar do vento desse amanhecer
sem moral sou acuado animal
que uiva para a inalcançável lua
Despi-me de ética
só pela estética de parecer o que não sou.
Tornei-me vazia
e isso não me acalma.
Ganhei o mundo e perdi a alma
defronte de um eletrônico painel
sou uma rainha de papel
que não governa nada.
Não tenho mais povo, só partido,
partido está meu coração
que se despedaça a cada aprovação de lei
que eu não li e que não sei,
mas dei meu parecer.
Quero fugir antes que de vez me perca
contudo, perco minha cabeça se abrir a boca
para discordar.
É tarde. Perdi minha ética.
(Dáuvanny Costa)

Voltando...

Há um tempo determinado para todas as coisas e a vida é cheia de surpresas. Surpresas dolorosas tantas vezes; surpresas que podem destruir nossas vidas (ou nos tornar mais fortes). Surpresas que não desejamos. Há outras, todavia, agradáveis. Surpresas que nos fazem sorrir de novo, aquele riso de infância, riso que não sabemos mais rir.
Há um tempo determinado para todas as coisas. Difícil é ter a sabedoria para notar esse tempo. Que ele se faça hoje! Tempo de quebrar cadeias, tempo de restauração, tempo de ir ao parque com a cesta repleta para o piquenique. Tempo de conhecer e desfrutar o novo. Todavia, não há 'tempo determinado para amar', porque esse tempo é sempre. E o amor é sempre o mesmo, sempre antigo, porque é um verbo único que eu não conjugo no passado.
Há um tempo determinado para todas as coisas e talvez (minha única ciência) hoje seja o tempo de escrever novamente nesse blog; e o faço como a mãe que embala seu filho. Com cuidado vigilante. Por isso não escrevo sempre. Palavras são como frutas: não podem ser colhidas verdes nem aproveitam se apodrecidas. Tomo cuidado com as palavras porque Ele é o verbo.
Estive ausente. Circunspecta. Ocupada. Pré-ocupada. Como disse um amigo meu: saí sem deixar bilhete sob a caneca... espero que meus dois leitores possam perdoar-me. O café esfriou. Será que dá tempo de fazer um fresco, fumegante, novo?
Há um tempo determinado para todas as coisas. E chegará um tempo também em que aprenderei a agradecer o carinho dos amigos presentes. Aprenderei a olhar através deles com os olhos da graça que Deus deseja que eu tenha. Aprenderei também a escrever e então, talvez não plante mais esse rabiscos aqui, mas falarei ao coração de cada um.
Há um tempo determinado para todas as coisas. Meu tempo é sempre.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Notícias

Notícia: PF prende 23 em Rondônia em operação contra venda de sentenças

A Polícia Federal prendeu deputados, presidente do TJ e outras autoridades em Rondônia, em operação contra venda de sentenças. Segundo a manchete: "Grupo atuava intensamente na dilapidação do dinheiro público". Dentre os presos, muitos têm direito a foro especial, isto é, têm prerrogativas de se verem processados perante o Tribunal de Justiça. Meliantes, contudo, com prerrogativas. Novidade alguma, haja vista os criminosos, nesse país, terem comumente mais direitos que os cidadãos honestos.
Já que o assunto é Direito, cabe lembrar que o Direito é um meio de mitigar as desigualdades, e a luta pelo direito, relembrando Rudolf Von Ihering, é o dever do interessado para consigo próprio. Cabe a pergunta: Até quando o povo suportará a cabeça da hidra chamada corrupção, imoralidade e ilegalidade?
Quid vobis videtur?
(Dáuvanny Costa)

Chá de laranja e Teologia

Perguntam-me com uma frequência impertinente qual minha posição teológica. Respondo - não sem a mesma impertinência - que minha posição teológica é "de joelhos". Certamente, como Teóloga, posso defender posições mais apologéticas, todavia, há mais convicção na explicação impertinente que uso.
Visto minha crença como uma segunda pele e exprimo essa convicção porque sei o preço que ela me custou; preço esse que jamais pediria a alguém para pagar. Não creio em fé que não foi provada até quase desaparecer; não creio em vidas sem dúvidas ou incertezas; não creio no cristianismo da moda que vende milagres como se fosse uma feira de peixes; não creio em vitórias baratas; em caminho sem cruz; em sorrisos sem lágrimas. Creio apenas em Deus; naquele Deus que foi humilhado e crucificado. Alguém lembra-se?
Esse blog - e minhas defesas à fé - pode confundir os desavisados. Os escritos e as falas que ressoam de mim podem soar - aos desavisados - como contradição. Pois que seja! Dúvidas? Tenho-as, e por tê-las, busco respostas, destarte, as dúvidas me aproximam de Deus. Contraditório mesmo. Lamento por não poder explicar melhor. É minha fé, não em mim, mas naquele que me sustenta e guia mansamente mesmo nos vales da sombra da morte. Minha fé - pronome possessivo.
Tenho ouvido - e lido - críticas (em roupas de conselhos (?)) à minha vida cristã. Todavia, tenho perguntado constantemente o que tenho a oferecer a Deus e à sua igreja. Nada. Sou, como escreveu Kiril, o Papa, pelas mãos de Morris West, uma mulher que foi arrancada à vida, como Lázaro, e a ela voltou, pela mão do Senhor. Costumo empregar o salmo 18 para dizer que Ele me tirou das águas profundas ("as muitas águas"). Quero, por esse motivo, que Ele faça de mim a melhor, para que eu possa colaborar na condução da igreja de volta a Ele. E a igreja não é um lugar de prosperidade e gente feliz - conforme se ouve por aí - também é o lugar de homens (e mulheres) confusos, sofredores, perdidos, negados, traídos, homens e mulheres agonizantes a chorar na noite; lugar de crianças famintas e abandonadas, esquecidas, prostituídas. A igreja também é formada de pecadores e foi para esses que, de fato, o Cristo esteve entre nós.
Somos pastores negligentes. Somos egoístas e a maior parte do tempo medíocres. Não confessamos as próprias dúvidas; devo pensar que é uma raça nova de superheróis - os supercrentes, cujas orações são sempre ouvidas e respondidas (favoravelmente, lembro). Eu? Ainda pelas mãos de Kiril respondo: "oro, mas não ouço a trovoada na montanha; meus olhos não veêm os esplendores nas colinas; encontro-me entre Deus e o homem, mas só ouço o homem e a voz do meu coração" (As sandálias do Pescador, Morris West). Já vi o pior que me pode acontecer e ainda creio, portanto, isso basta. Não preciso provar nada para ninguém.
Não tenho respostas; principalmente não tenho frases prontas e mágicas. Só tenho esperança. Todavia, Deus, para mim, é tão real quanto essa xícara de chá de laranja com especiarias que agora bebo.
(Dáuvanny Costa)

sábado, 22 de julho de 2006

O Desaparecido

"Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim. Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão. Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor".
(Rubem Braga)