segunda-feira, 10 de maio de 2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Teoria da Conspiração

Cheguei à conclusão de que a Bíblia que conheço está equivocada. Com uma agravante: todas as versões que tenho trazem o mesmo conteúdo. Bíblias simples, transbordantes da simplicidade do Evangelho. Descrevem um Deus com um propósito único: imolar-se por amor à humanidade criada; descrevem a criação de um mundo perfeito, contaminado pela maldade que prolifera no coração do homem; descrevem homens e mulheres lutando e morrendo para propagar as boas novas da salvação; descrevem pessoas comuns com o desejo íntimo de servir ao seu Deus.
Os tele-evangelistas, os megapastores, os homens de negócios das igrejas evangélicas atuais, são pregadores que pregam tudo, menos a Palavra que conheço, são pregadores que pregam suas próprias convicções, seus exageros em nome da fé, suas teologias inférteis e absurdas; são pregadores que desencadeiam escândalos em lugar de pregar o escândalo da cruz.
Exploradores de gente que não entendeu a diferença entre fé e crença e que busca tesouros corruptíveis; gente que não entendeu que fé verdadeira só se desenvolve nos paroxismos da dor. Gente que não entendeu a diferença entre o Deus amoroso e um gênio da lâmpada; entre o Cristo imolado e uma barganha em um gazofilácio; entre o Espírito Santo consolador e um homem que oprime em nome da fé.
As bíblias que leio têm, aqui e ali, alguns versículos encorajadores, mas não são poções mágicas, não trazem "abre-te, sésamo" tampouco "abracadabra"; antes trazem "SE guardares os meus mandamentos" ou "Jesus chorou".
Confesso que não conheço-O. Quando pensei que poderia conhecê-lO, sofri duro golpe e, humana, quedei-me. Vacilante caminhei e sucessões de golpes atingiram-me. Não conheço-O. No entanto, me é mais reconfortante ler "e Jesus chorou" (Jo. 11.35) que "o Senhor te fará abundar de bens" (Dt 28.11). Porque bens são transitórios, mas o amor de Deus chorando por mim é para sempre.
Pontofinalizando, cheguei à conclusão de que a Bíblia que conheço está mesmo equivocada; contudo, equivocada para esses pseudoevangelhos pregados por pseudopastores que espreitam vítimas de quem possam extorquir a esperança. Seus nomes, aqui nesse blog, são impublicáveis; não dou audiência à mediocridade. É que às vezes não posso calar-me.
(Dáuvanny Costa)

Só sei que foi assim

Presentes, festa surpresa no trabalho, almoço com amigos, telefonemas carinhosos, e-mails gentis, um jantar especial, o filme "um sonho possível" no final da noite, e algumas páginas do Goffredo Telles; foi um ótimo dia no final das contas.
E eu, tantas vezes avessa à festividades, celebrei a mágica de encontrar a paz. Ao menos ontem.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Superlotação carcerária X Insegurança pública

Para fazer frente à superlotação das prisões brasileiras, projeto do Ministério da Justiça propõe que os detentos menos perigosos saiam das cadeias e passem a ser monitorados eletronicamente. A medida pode mandar para as ruas 80 mil presos, cerca de 20% da população carcerária do país.
É uma ótima solução para mostrar que o crime compensa.
(Dáuvanny Costa)

Acima da mediocridade

"Os espíritos convulsionados por algum ideal, são inimigos da mediocridade: sonhadores contra os utilitários, entusiastas contra os apáticos, generosos contra os calculadores, indisciplinados contra os dogmáticos". (Ingenieros in O homem medíocre)

Nossas aversões

"Fenômenos bizarros da contemporaneidade como a música gospel, a Teologia da Libertação ou o pentecostalismo não são, como se faz parecer, movimentos que surgiram concomitantemente à degradação do estudo teológico, que infectado pelo relativismo acadêmico europeu transpareceu amadoramente certa tendência ao niilismo. É, antes, a origem dos mesmos fenômenos. Contudo se pela retórica comum Deus ama o pecador, mas odeia o pecado, o pentecostal é desprezível antagonicamente ao próprio movimento pentecostal, que exerce suas credenciais dentro de uma aceitabilidade bíblica ainda que escassa e essencialmente contraditória. Separemos, portanto, o pentecostalismo de seus fiéis tendo em mente que os indivíduos pentecostal e protestante são como água e óleo em um mesmo recipiente. [...]"
(Filipe Liepkan)

terça-feira, 20 de abril de 2010

A salvação que depende de mim

Salvar é tirar o outro de uma situação desfavorável e colocá-lo numa situação melhor. Foi essa a obra de Jesus. Foi o que Jesus fez por nós para que possamos fazer pelos outros. No afã de pregar as boas novas do Reino (ou o que se acha que são as boas novas do Reino) talvez nos esqueçamos de que o fundamento do Evangelho é o AMOR. O amor deve nortear a nossa conduta; não amor como sentimento, que se extingue se algo nos aborrece, mas amor como escolha. Amor como o d’Aquele que nos ensina a amar.
A salvação conferida em Cristo é salvação para a eternidade, salvação pessoal e intransferível, que perdoa as nossas dívidas e nos honra sem merecimento. A salvação para a eternidade parte d’Ele, que nos amou primeiro e nos aceitou para que possamos aceitar o convite de servi-lo.
E ao servi-lo nos tornamos salvadores. Quando olho o outro com olhar de misericórdia, quando me esforço para entender suas dores, quando ouço sua história com atenção, revivo em mim a história do meu Salvador, aproximo-me de Cristo e posso ser chamada cristã. Ser cristão não é ser um próspero frequentador de igrejas, mas antes trazer no coração a história da igreja. Ser cristão não é ser um próspero pregador, mas antes ser um salvador de almas e de vidas. Salvamos almas quando propagamos a verdade do Reino e salvamos vidas quando paramos para ouvir o outro.
A bondade é alardeada em toda a parte; todos os homens gostam de se dizer bons e todos o são até que a bondade, de fato, seja exigida. A bondade do homem só dura até o momento de colocá-la em prática, até que seja necessário salvar alguém.
A salvação que depende de nós passa pela vocação de ser salvador, pela ação de fazer o outro se sentir amado. Fazer o outro se sentir amado também é propagar a Verdade.
Não uma verdade, mas a verdade que liberta.
(Dáuvanny Costa)

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Sua Excelência, o ditador

Segundo o Luis Inácio Lula da Silva, “não podemos ficar subordinados ao que um juiz diz que podemos ou não fazer”; palavras proferidas em resposta às punições da Justiça Eleitoral em virtude das campanhas que teima em fazer a favor da sua candidata à Presidência da República.
Sua Excelência está sempre mostrando a que veio. Quem tem ouvidos, ouça.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

AMAR EM SEUS VERBOS

Amar é verbo que se expande em outros.
Amar é gostar,
cuidar,
agradar,
esperar,
devotar,
lembrar,
correr na direção de.

desejar,
pensar,
experimentar,
apreciar,
entregar,
adorar,
escolher aquele que.

chorar,
necessitar,
amparar,
perdoar,
zelar,
admoestar,
fazer amor com.

enaltecer,
desprender,
querer,
aprender,
entender,
sofrer,
morrer por.
(Dáuvanny Costa)

segunda-feira, 1 de março de 2010

GRATIDÃO: Qualidade e Peso

Uma das coisas que aprendi na vida foi o valor da gratidão. Gratidão, do latim gratitudine, é qualidade daquele que reconhece o que lhe foi feito. E bem-aventurado quem reconhece um benefício recebido.
Não há que se falar em gratidão sem iniciar com o sacrifício expiatório do Cristo. Seu sacrifício transcende todos os entendimentos que recebem a palavra “graça”. Todas as manifestações possíveis do verbo “agraciar”. Seu sacrifício torna todas as minhas boas ações óbolos interesseiros. Seu sacrifício me torna em dívida. Dívida que ele não cobra, é importante salientar. A graça de Deus me torna agraciada, por óbvio, mas também me torna agradecida.
Gratidão que se estende quando recebo algum favor. Alguns favores são menores, outros maiores, mas todos passam pela barreira do recebimento, da expectativa, da cobrança. Os bancos são grandes prestadores de favores. Alguém poderá me contradizer dizendo que bancos não fazem favores. Discordo. Na hora da necessidade eles prestam grandes favores. A cobrança que fazem dos favores prestados é que pesa. E bancos não têm misericórdia na hora de cobrar.
Alguns favores que recebemos na vida são assim. Favores de bancos. Na hora da necessidade estão dispostos a ajudar, mas...
Bem, minhas reticências, obviamente, não justificam a ingratidão para com alguém que nos estende a mão. O que ocorre, por vezes, é que a mão que se levanta para ajudar também é hábil em se levantar para ferir. E isso nos esmaga. Perturba nossos valores pessoais. Tornamo-nos ingratos contra a nossa vontade. Estou certa de que não passei por isso sozinha. Atire a primeira pedra quem nunca se agastou com alguém a quem respeitava.
No entanto – e é esse o intento deste palavrar – a gratidão, para mim, se arraiga com tamanha força que permanece acesa a fagulha dos primeiros tempos. O coração perdoa a ofensa, mas a memória tende a regá-la todos os dias. Sou grata aos poucos que me ajudaram a chegar aonde cheguei. E que isso nunca lhes passe despercebido. Em tempo oportuno hão de receber retribuição aos seus favores. Ainda que tenham sido favores de banco.
Olho também com alegria aos que me dedicam gratidão. Todavia, ainda tento esquecer os favores que faço. Tento enfraquecer minha memória para essas lembranças. O que fazemos não nos diz mais respeito; pertence ao outro. Confesso, porém: minha memória teima em querer se lembrar e espero a devoção solene daquele para quem estendi a mão, a quem encorajei, a quem prestei favores. Nessas horas os favores caem por terra e uma voz quase inaudível sussurra em mim: “melhor era não teres feito”...
Gratidão é qualidade nobre. E cuido bem dela em meu coração. No entanto, tão nobre quanto ela é não esperá-la de quem quer que seja, porque fomos feitos para servir.
(Dáuvanny Costa)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A vida

"Meu irmão, - eu não estou abatido, nem perdi a coragem. A vida é em toda a parte a vida, a vida está em nós e não no mundo que nos cerca" (...)
(Dostoiévski, ao irmão Miguel, escrita poucas horas depois de conhecer sua pena)

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Entre ANILHAS e a CRUZ

A primeira vez que levantei peso a barra não pesava mais que seis quilos. Anilhas de três quilos em cada uma das extremidades. Com o tempo as anilhas foram aumentando em número e peso. Desejava efeitos imediatos. Praticava regular e disciplinadamente, as lojas especializadas passaram a ser incluídas em minha agenda, albumina e proteínas passaram a ser incluídas na dieta.
Um fator se mostrou evidente: disciplina. Disciplina imposta por meu corpo e consentida por minha alma. Disciplina para alcançar resultados que o espelho pudesse ver.
Notei, nessa circunstância, que a alma tolera os ditames do corpo sem exigir dele a mesma anuência. Notei ainda, nessa circunstância, que o corpo reluta em ceder aos pedidos da alma. Genuflectir, orar, visitar os pobres, consolar, ler as Escrituras; são atos que por vezes meu tempo não permite, e ainda que por eles a alma suspire, não consegue impor-se. Talvez porque seus resultados não sejam visíveis - no espelho.
Por vezes permitimos que supinos, crossover, leg press, extensão, flexão e roscas tenham mais importância que comunhão com Deus.
Por vezes permitimos que os ditames do corpo façam mais sentido que as súplicas da alma.
Por vezes permitimos que coisas, resultados, aparências, condições, tenham mais urgência que orar pelos que dessas orações necessitam.
Por vezes permitimos que.
Antes de atirar a primeira pedra, porém, olhe-se no espelho. Qual tem sido sua devoção?
A musculação ainda é praticada com disciplina, sem tirar os olhos, contudo, do que disciplina minha alma.
(Dáuvanny Costa)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O suficiente

Por que tanto alarde por causa de mais um ano?! Já não deveria ser festa quando vira o dia?!
De qualquer sorte, agradeço aos amigos presentes, aos ausentes que durante algum tempo foram presentes, e aos futuros, pela expectativa do amanhã.
Aos que não desistiram de crer em mim, desejo que este ano lhes traga o suficiente.
(Dáuvanny Costa)

Obrigada

Filipe Liepkan, escultor de palavras. Blog que vale a pena - e o teclado.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Indulto ou Insulto?

O indulto é um ato de clemência do Presidente da República. E uma das causas excludentes da punibilidade, como reza o artigo 107 do Código Penal:
“Art. 107 - Extingue-se a punibilidade:
I – OMISSIS;
II – pela anistia, graça ou indulto;
III a IX – OMISSIS”;

A anistia, segundo Damásio de Jesus, atinge, em regra, os crimes políticos, pode ser concedida pelo Poder Legislativo e exclui o crime, rescinde a condenação e extingue totalmente a punibilidade; a graça e o indulto atingem crimes comuns, são de competência exclusiva do Presidente da República e apenas extinguem a punibilidade, podendo ser parciais.
O que, comumente, passou a ser chamado de “indulto”, não passa de saída temporária. Saída temporária de presos para visitar suas famílias durante algumas épocas festivas; destarte, tem-se a “saída temporária do dia das mães” (ainda que não tenham mãe ou sejam filhos da), “saída temporária da Páscoa ou do Natal” (ainda que não sejam cristãos, aliás, cristãos não são mesmo), “saída temporária do dia da letra Q”... Em substância, o que não faltam são as saídas temporárias. Quanto aos contribuintes, nessas épocas é melhor alugar um bom filme, cerrar cautelosamente portas e janelas e se enclausurar em prisões forçadas. Porque o Estado decidiu que a liberdade dos filhos da, é mais importante que a nossa. Eles saem. Nós não.
Pois bem. O Decreto 5295/04, concede o tal do “indulto condicional” a algumas espécies de condenados, desde que atendidas algumas condições. A tendência liberalizante da generosidade do Estado não condiz com a realidade da violência com a qual convivemos diuturnamente. Desamparados pelo poder público, somos alvos fáceis da ideologia falaciosa dos grupos de defesa aos direitos dos meliantes (a quem chamam, carinhosamente, de “humanos”).
O intuito verdadeiro dessas saídas temporárias é abrandar a pena dos condenados, concedendo a eles o que eles não concedem às suas vítimas: clemência. Acuados, observamos atônitos e silenciosos os agravos cometidos contra a nossa cidadania. Nossa liberdade, tolhida constantemente, é agredida por cada sentença favorável, por cada benesse pública, por cada ato discutível do Poder Judiciário, por cada assinatura do Presidente da República. Furtados, humilhados, violentados, sequestrados, ainda somos forçados a conviver com a lassidão das leis.
Não bastasse a tenuidade na aplicação das penas, os gestores do Estado não se intimidam em liberar prisioneiros já condenados, na ânsia de desocupar presídios e delegacias. O contribuinte que se vire. E ore. Se souber.
(Dáuvanny Costa)

sábado, 5 de dezembro de 2009

Como ficam as garantias da SOCIEDADE???

[...]
"Imaginemos agora que você more num prédio de apartamentos, no qual moram várias famílias, cujas crianças costumam brincar num playground situado nos fundos do terreno. No terceiro andar mora um rapaz, dono do apartamento, cujo quarto tem a janela voltada para o tal playground. Ele encontra-se em gozo de férias e, por isso, pretendia dormir até mais tarde, o que o barulho da criançada não permite. Ele então empunha sua espingarda de caça e vai abatendo, uma a uma, as perturbadoras crianças, como se estivesse em Columbine.
Ele vem a ser preso, é lavrado o auto de prisão em flagrante e arbitrada fiança, pois ele é primário, tem residência fixa e emprego. Paga a fiança, ele é solto, voltando para casa.
Vamos dramatizar ainda mais: uma das crianças mortas era seu único filho. Como você se sentiria cruzando diariamente com aquele vizinho no corredor do edifício ou subindo com ele no mesmo elevador? Que ideias lhe viriam à mente?
Oferecida denúncia contra ele, o defensor arrola meia dúzia de testemunhas, dentre as quais Gisele Bündchen e Ricardo Izecson Santos Leite. Serão expedidas cartas rogatórias para ser tomado o depoimento da itinerante modelo onde quer que ela esteja desfilando e para ser ouvido o tal rapaz, que atua no futebol da Europa sob o nome de Kaká. Anos depois, quando voltarem as cartas rogatórias devidamente cumpridas, a defensoria requererá que o jogador e a modelo sejam submetidos a acareação, cujo indeferimento caracterizaria cerceamento de defesa. Quanto tempo mais será necessário?
Imaginemos que um dia a instrução desse processo termine e sobrevenha uma sentença condenatória. Condenatória? Coisa nenhuma. Será uma sentença determinando que o réu seja submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. O acusado continuará a circular pelo edifício onde vocês dois moram, pois é primário e tem bons antecedentes. E continua sendo legalmente inocente.
A primeira providência da defensoria será apresentar um recurso de Embargos de Declaração, para que o juiz explique melhor algum trecho da sentença. Esse recurso será rejeitado ou acolhido, publicando-se o resultado meses depois.
Sobrevem então o recurso propriamente dito, que deverá ser apreciado pelo Tribunal de Justiça, recurso esse no qual a defensoria certamente arguirá umas tantas nulidades e pedirá a despronúncia do recorrente, como é de praxe. Os autos do processo irão à Procuradoria de Justiça, de onde retornarão no ano seguinte. Enquanto isso você continua a cruzar com o mesmo vizinho no corredor do edifício onde ambos residem.
Anos depois, o recurso será julgado, confirmando-se a decisão que mandara o réu a julgamento pelo Tribunal do Júri. O Acórdão será então lavrado, assinado, registrado e publicado, o que exigirá uns tantos meses. A defensoria, então, apresentará recurso de Embargos de Declaração, para que seja esclarecido isto e mais aquilo. Meses depois os tais Embargos serão julgados, o respectivo Acórdão será lavrado, assinado, registrado e publicado, o que exigirá mais alguns meses. Enquanto isso você continua a cruzar com o recorrente no corredor do edifício onde ambos residem, pois ainda não é o caso de expedir-se mandado de prisão, já que o réu continua sendo legalmente inocente.
Agora a defensoria apresenta não apenas um, mas dois novos recursos. No primeiro, dito Recurso Especial, ela invocará violação de algum preceito constante de lei federal; no outro, dito Recurso Extraordinário, a defensoria alegará violação de algum preceito constitucional, coisa que qualquer rábula sabe fazer. Os autos irão novamente à Procuradoria de Justiça, de onde retornarão no ano seguinte, com pareceres sobre um e outro desses recursos. Eles serão então despachados pelo Presidente do Tribunal de Justiça que ou manda que o recurso seja enviado ao tribunal de Brasília competente para apreciá-lo, ou indefere o recurso. Do indeferimento caberá novo recurso, dito Agravo de Instrumento, que será apreciado por um Ministro de um Tribunal Superior, em Brasília, sabe-se lá quando. Em Brasília caberão tantos recursos de Embargos de Declaração quantos a imaginação e a criatividade do Advogado conseguirem criar. Quando algum deles for indeferido liminarmente, sob a alegação de ser meramente protelatório, sempre caberá o recurso de Agravo Regimental, cuja decisão também admite novos Embargos Declaratórios.
Enquanto isso você continua a cruzar no corredor do edifício, onde ambos ainda residem, com a pessoa que, anos atrás, quando os cabelos de tua esposa ainda não eram grisalhos e quando havia cabelos em tua cabeça, disparou contra crianças que faziam algazarra no playground do edifício onde você e ele já viviam. Lembra-se?
Repare que até agora ele ainda não foi submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. Quando isso ocorrer e ele for condenado, finalmente ele será preso e começará a cumprir a pena. Certo? Errado. Ainda faltam ser interpostos muitos e muitos recursos.
Quando tiver sido definitivamente julgado, o tal rapaz, agora um respeitável senhor, casado e bem empregado, deverá deixar o emprego e a família para passar uns tempos atrás das grades. Uns anos mais e ele sairá de lá presumivelmente ressocializado.
Esse trabalho merece uma crítica técnica: enquanto o Tribunal do Júri não afirma sua culpa, o homicida deve ser considerado tecnicamente inocente. Acontece que mesmo depois de condenado pelo Júri, sabe-se lá quando, ele continua em liberdade. Depois de confirmada a condenação no Tribunal de Justiça, ele continua solto. Rejeitado o Recurso Especial pelo Superior Tribunal de Justiça, ele continua solto. Denegado Recurso Extraordinário pelo Supremo Tribunal Federal, ele ainda continuará solto. E tanto num como em outro desses tribunais caberão ainda recursos e mais recursos. Tudo em nome das "garantias do acusado".
E como ficam as garantias da sociedade?"
(Adauto Suannes)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Batendo na Porta do Céu

Às vezes passamos tempo demais das nossas vidas batendo em portas que talvez não abram-se. Não são portas para serem abertas. Ao menos não para nós.
Outras vezes a porta é estreita como fundo de agulha; a possibilidade de passar existe; contudo, a entrada é árdua como apenas ELE tem criatividade para criar. São aquelas portas que passamos deixando partes para trás, com trocadilho e tudo. Parece até que estamos passando pela fechadura. No afã de que aquela porta se abra talvez não tenhamos paciência para esperar a chave ou o milagre do mar vermelho.
Há também portas que se abrem largas à nossa frente, mas não eram as. Com pesos invisíveis presos aos pés, demoramos a atravessá-las, tentando nos convencer de que ELE se enganou, de que houve um equívoco. Nossa obstinação é maior que o desejo de encontrar um caminho preparado especialmente para nós.
Por fim, há vezes em que a vontade dEle para nós é a de que voltemos; à guisa do que disse pro tal de Elias: "Vai, volta pelo teu caminho para o deserto..." Ora, é para ir ou voltar, Deus?! Seria bom algumas vezes tornar as coisas claras, só para variar, porque também estou à porta. E bato.
(Dáuvanny Costa)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Viagens e Versos

Nada se altera em mim quando escrevo. Percebo umas poucas desopressões na alma, mas o peso das palavras não ditas insiste em criar inquietudes. Mudo quando leio. Às vezes. Mudo a minha forma de tolerar opiniões contrárias. Meu olhar muda para direções que ainda não havia concebido ou mudo o modo de olhar para direções contrárias às que costumo ir.
Escrevo para aliviar a bagagem, como se faz numa troca de mão ou numa desocupação de malas.
Leio para adquirir mais peso até não poder mais transportá-lo e novamente sofra a necessidade de aliviar a bagagem. Bagagem necessária para essas viagens rumo ao outro.
(Dáuvanny Costa)

Em tempo: O Lou acha que os (assim mesmo, artigo definido) blogs estão chatos e que os blogueiros andam procurando promoção pessoal. Então tá... para que, então, ficar proseando por aqui e rasgando o coração?...
Talvez eu durma um pouco.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O amuleto

Antigamente o cristão/protestante/crente se convertia à Palavra, ao Evangelho, a Cristo; hoje se exige a adaptação de Cristo ao homem. A oração de hoje tem sido: seja feita a nossa vontade. A cruz se transmuda, de loucura e escândalo, em amuleto.
Dias tortuosos.
(Dáuvanny Costa)

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Os desassossegos de Davi

"Não me repreendas, Senhor, na tua ira,
nem me castigues no teu furor.
Cravam-se em mim as tuas setas,
e a tua mão recai sobre mim.
Não há parte sã na minha carne, por causa da tua indignação;
não há saúde nos meus ossos, por causa do meu pecado.
Pois já se elevam acima de minha cabeça as minhas iniquidades;
como fardos pesados, excedem as minhas forças.
Tornam-se infectas e purulentas as minhas chagas,
por causa da minha loucura.
Sinto-me encurvado e sobremodo abatido,
ando de luto o dia todo.
Ardem-me os lombos,
e não há parte sã na minha carne.
Estou aflito e mui quebrantado;
dou gemidos por efeito do desassossego do meu coração.
Na tua presença, Senhor, estão os meus desejos todos,
e a minha ansiedade não te é oculta".
(Salmo 38.1-9. De Davi. Bíblia de Estudo Vida. Almeida Revista e Corrigida)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Livros - Anencefalia nos Tribunais

A obra é uma coletânea de textos (nove ao todo) produzidos no intuito de apresentar argumentos - favoráveis e desfavoráveis - acerca da legalização do aborto de fetos anencefálicos.
Nomes como Ives Gandra da Silva Martins, Luiz Flávio Gomes e Luís Roberto Barroso apresentam suas opiniões sobre o assunto. O tema é controverso, resta óbvio; discussão que envolve ponderação de bens supostamente em conflito: de um lado, a autonomia da gestante e, de outro, a potencialidade da vida do nascituro. No caso do feto anencefálico, está cientificamente provado que não há vida extra-uterina.
Anencefalia não se confunde com doença. O feto anencefálico não tem atividade cerebral, pois não apresenta os hemisférios cerebrais e o córtex, havendo apenas resíduo de tronco encefálico; vulgarmente conhecida como "ausência de cérebro", a anomalia consiste na inexistência das funções superiores do sistema nervoso central. É fatal em cem por cento dos casos.

"Anencefalia nos Tribunais", produzido pelo "Migalhas", não tem o intento de formar opinião, qualquer que seja ela, favorável ou desfavorável ao tema; pretende apenas fomentar o diálogo, a discussão jurídica, o debate sem preconceitos irracionais.
O STF se pronunciará sobre. Até lá o livro é um convite ao assunto.
(Dáuvanny Costa)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pessoas

"Há pessoas que desejam saber só por saber, e isso é curiosidade;
outras, para alcançarem fama, e isso é vaidade;
outras, para enriquecerem com a sua ciência, e isso é um negócio torpe;
outras, para serem edificadas, e isso é prudência;
outras, para edificarem os outros, e isso é caridade. "
(Tomás de Aquino)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Decepções e Laranjas

"Hoje caminhamos por caminhar. Como bois no trabalho.
Ontem eu sonhava com paraísos de laranjeiras. Hoje não há mais paraísos para mim.
Não creio mais na existência de laranjas".
(Antoine de Saint-Exupèry in Terra dos Homens)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

À moda antiga

Sim, ainda escrevo cartas e as envio - quase sempre. Ainda envio postais quando em viagem. Dessas coisas que não existem mais. Em épocas de twitter (troço que não sei para que serve, aliás), escrever cartas é como brincar de pirocóptero, escrever com caneta quatro cores, ter um vídeo-K7 e conjugar verbos. Coisas fora de moda.
Nada contra as invenções que tornam a vida mais fácil. Adoro-as. Nem sei o que faria sem elas; mas por Deus! O que há de errado com escrever cartas, responder a e-mails, retornar telefonemas, pedir licença para passar, segurar a porta, dizer "por favor", agradecer por pequenas gentilezas e conjugar verbos corretamente? O que há de errado com não perder a educação só porque "evoluímos"? O que há de errado, afinal, em se importar com alguém a ponto de escrever-lhe cartas ou de jantar gostosamente à luz de velas?!
Em visita à Rachel após um longo inverno, a ouvi reclamar de minha ausência. Estava ofendida por não lhe ter escrito no aniversário. "Como?!" - exclamei - "Escrevi. Como o fiz também no dia das mães!" Ela, ainda ofendida, apenas retorquiu: "Não, você não escreveu..."
Ela tinha razão. Pessoalidade faz toda a diferença.
...Sou eu que acostumo mal os meus amigos. Paciência. Ainda escrevo cartas.
(Dáuvanny Costa)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Pastores de quem?

A função do pastor era é  guiar, conduzir, aconselhar, ajudar a discernir, esclarecer as ovelhas de seu aprisco. O que vemos, entretanto, são pastores que pastoreiam a si mesmos e a seus próprios interesses. Destarte, sou grata a Deus por não permitir que pastores me saqueassem a fé. Ainda.
Pululam embustes por todos os lados. Mercadores da fé vendem orações milagrosas, pulseiras santas, água benta, bíblias da prosperidade, óleos ungidos, dentre tantos outros artifícios, cujo intuito é a mercancia da esperança.
Impostores que despedaçam a alegria das boas-novas com excessos religiosos infecundos, com fantasia em lugar de virtudes, com promessas falaciosas de vida plena sem a plenitude da Vida. Impostores que vilipendiam o sacrifício expiatório de Cristo e enganam gente humilde que precisa ver para crer, que busca composição física para o exercício de sua fé, que não descobriu ainda que a única promessa é a da Vida Eterna.
Fiéis dispostos a crer para não conviverem com as agruras da vida; fiéis para quem não basta o sacrifício vicário do Cordeiro; fiéis que flertam com a infidelidade cobiçando bezerros de ouro enquanto voltam seus olhos para homens sem ética que se valem da superficialidade dos seus discursos.
Pastores de quem? Pastores de quê? Homens que não representam bem o Evangelho, homens e mulheres que tornam a fé árida; fé que, em suas intenções espúrias, se torna apenas objeto de troca, meio para aquisição de sonhos de infância que não puderam se realizar sem que se usasse o nome de Deus em vão.
Reinventam Deus, reescrevem a Bíblia com histórias mágicas de auto-ajuda e auto-sugestão. Repintam Jesus em roupas de grife e carros luxuosos; e o carpinteiro, o pregador, o pescador de almas se torna um executivo preocupado com o sucesso e a megalomania de seus filhos.
O que há de errado com a igreja? Que caminhos tortos a desvirtuam? O que há de errado comigo que me calo enquanto observo impotente?
Observo mais. O evangelho virou zombaria. E os incomodados, zombam ainda mais. Quem não se cala, faz pilhéria; no afã de criticar, zombam; sem a percepção de que isso faz aumentar o número de seguidores dos infiéis. Mentiras em nome da fé. Chistes idem.
Onde encontro a saída?
(Dáuvanny Costa)

domingo, 27 de setembro de 2009

Para não acordar o dia

Vinho e fondue de queijo. Prosa que deleita. Ao fundo, Gaither Vocal Band. Não troco uma noite assim por multidões.

sábado, 26 de setembro de 2009

Livros - A Cabana

O livro “A Cabana” procura mostrar um rosto diferente para Deus. Diferente do que vem sendo pregado em todas algumas denominações. Na maioria, para ser franca. Para mais ou para menos.
O autor não tem como objetivo defender a Trindade. Não advoga para Deus. Mostra um Deus amoroso, um Jesus amável e um Espírito Santo consolador (como devemos de fato enxergá-los); em figuras distintas e peculiares. Bem peculiares.
A história se desenvolve em uma cabana, cenário de um crime. O pai da vítima procura explicações para o aparente descaso de Deus e, na ausência de respostas, ocorre arrefecimento em sua fé; não consegue vê-lo como um Deus amoroso. Inevitável em dolorosas circunstâncias. Inevitável sentimento de abandono a qualquer que se sente esquecido ou traído por Deus.
É um livro ingênuo que alcançou o primeiro lugar na lista dos mais vendidos do The New York Times. Em que pese o sucesso de público e de crítica, porém, trata-se, ratifico, de um livro ingênuo. Creio que os que realmente sofreram – a quem, prima facie, encaminha-se o livro – enxergam virtudes nele, mas reconhecem-no pouco incisivo. Após a leitura, as máscaras tendem a cair, a ferida latente se apresenta desorientada trazendo toda a dor que conseguimos guardar, e a esperança de experimentar um encontro parecido com o Criador quase toma o coração. Quase.
O livro, em suma, não traz nada de novo. Não para os do lado de cá. Lado da dor. Lado de quem aprendeu a ter fé exatamente por causa do silêncio de Deus; fé conquistada nas plagas do abandono celestial.
A tentativa de trazer à baila a igualdade homem/mulher é uma das boas coisas do livro; mostrar Deus como um pai/mãe sofredor conforta o coração de quem não tem respostas; e a apresentação de um Deus humano, limitado, alegre, jovial e diferente do que se prega nas em algumas instituições religiosas, nos aproxima do Pai; no entanto, só a Escritura basta (sola scriptura). Em meus desesperos latentes, emergentes ou manifestos, não tive – ou tenho – encontros de tal natureza com Deus. Teofania é algo que só conheço das aulas de teologia (e dos dicionários); mas ela não me é, de fato, necessária. A Escritura basta a mim.
Sabê-lo, entretanto, na lista dos mais vendidos é fato que já vale a leitura; é sempre bom leituras cristãs alcançarem sucesso no meio secular. Ainda que não cicatrizem as chagas. Assunto para o Deus real resolver.
No mais, essa fé adquirida nas intempéries da vida não pode ser assim negociada com um trio fofo numa cabana.
A Escritura me basta.
(Dáuvanny Costa)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Amor, o interminável aprendizado

"CRIANÇA, pensava: amor, coisa que os adultos sabem. Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família, ante as mobílias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendizado.
Se enganava.
Se enganava porque o aprendizado do amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. Sim, o amor é um interminável aprendizado.
Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portões se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares, mas nem por isto se encontravam. E quando algum amante desaparecia ou se afastava, não era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. É que fora buscar outro amor, a busca recomeçara, pois a fome de amor não sacia nunca, como ali já não se saciara.
De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrás da aparente tranqüilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar. Aquele que era um crente fiel sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmácia, tão doméstica e feliz, de repente fugiu com um boêmio, largando marido e filhos.
Então, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora pareçam um porto onde as naus já atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram, eles também não sabem, estão no meio da viagem e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram.
Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixões. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus. Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor.
O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava.
Então, pensou: há o amor, há o desejo e há a paixão.
O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. É indistinto. Por alguém que, de repente, se ilumina nas taças de uma festa, por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina.
Já a paixão é outra coisa. O desejo não é nada pessoal. A paixão é um vendaval. Funde um no outro, é egoísta e, em muitos casos, fatal.
O amor soma desejo e paixão, é a arte das artes, é arte final.
Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não.
Amor às vezes coincide com o desejo, à vezes não.
Amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não.
E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor, às vezes, não.
Absurdo.
Como pode o amor não coincidir consigo mesmo?
Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? Há um amor dos vinte, um amor dos cinquenta e outro dos oitenta? Coisa de demente.
Não era só a estória e as estórias do seu amor. Não história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente.
Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado.
Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado.
O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca o aprendizado.
Optou por aceitar a sua ignorância.
Em matéria de amor, escolar, era um repetente conformado.
E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado".
(Affonso Romano de Sant'Anna)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Mais edis para os redis

O Plenário aprovou, no último dia 22, em segundo turno, as PECs 336/09 e 379/09, que aumentam o número de vereadores do país dos atuais cerca de 52 mil para cerca de 59 mil.
As PECs serão promulgadas em sessão solene do Congresso.
Enquanto isso a PEC 300 está à espera de um milagre...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

E o sol da liberdade em raios não tão fúlgidos

Cessa a chuva e o coração se alegra por dizer do sol que surge. Surge ainda tímido, com raios inibidos a colorir de azul o céu antes cinzento de pesadas e desesperadas chuvas que se fazem notar - ainda que não desejassem. Com os tons azulados recém-surgidos as ruas voltam a ser percorridas por gente apressada que nem se deu conta de quantas esperanças a chuva arrastou. Arrastou sonhos de quem não tem mais para onde voltar. Mas e daí? São sonhos dos outros...
O coração se alegra em poder dizer do sol que fulge, pois com ele o céu faz-se novamente visível. E essa é a casa para onde desejo voltar.
(Dáuvanny Costa)

domingo, 20 de setembro de 2009

Aquém de

"Não há maneira melhor de se destruir um homem do que obrigá-lo a tentar não fazer o melhor de que é capaz". (Ayn Rand)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Perturbações de uma segunda-feira

Tempos tortuosos esses, em que cegos são orientados por outros cegos. Condutores e conduzidos, com razões obliteradas, se encontrando nos desencontros. Mesmos sentimentos de viver na opulência. Opulência dos excessos. Excesso de crença no fácil filosofar de pregadores sem caráter; excesso de ardis para convencer incautos a venderem sua ingenuidade. Desconfio de que nenhum dos dois grupos chegue a lugar algum - ou, ao menos, ao lugar esperado.
É a exegese da conveniência de quem prega conjugada à falta de entendimento de quem ouve. E quem não ouve, mas pensa que ouve, dispensa facécias em lugar de lamentos. E o púlpito sofre. E a Palavra sofre. Sofrimentos sem sofreguidão, que aguardam o equilíbrio entre o lavar de mãos e os apedrejamentos.
(Dáuvanny Costa)

sábado, 12 de setembro de 2009

Erros de fado e fato

Errei e erro porque sou eu. Mulher. Carne, sangue e coração.
Errei e erro porque não desisto no meio da jornada. Tenho coragem de ousar.
Erro porque não sou perfeita e sei reconhecê-lo. Sou humana e nenhum humano é perfeito. Isso faz de nós seres únicos. Nenhum igual a outro. A perfeição rouba nossa criatividade; criatividade que só existe na diferença.
Lamento profundamente por quem se acha perfeito. Por quem destrói o que não entende – ou não pode ter. Desconfio de que os seres muito perfeitos não têm espelhos em casa – porque não veem os seus horrores. Tampouco têm amigos – porque ninguém consegue ser amigo de um ser que se julga perfeito.
Errei e erro porque sou humana. Miseravelmente humana. Todavia, minha humanidade não me serve de escusas e não há glória em meus erros. Que me perdoem meus credores: não sou perfeita.
Erro e perco-me no meio dos caminhos. Caminhos que se abrem diante dos meus pés instando a escolhas que não sei se quero fazer. Cobrando-me decisões que não sei se devem ser feitas no momento em que aparecem para ser tomadas.
Erro como ser humano caído procurando um sentido para a vida e plasmando horizontes que meus olhos ainda não podem enxergar. Erro porque ouso. E ouso porque erro.
Descortino esperanças adormecidas e brinco com o desejo de ser perfeita, sabendo que a imperfeição é que me torna especial aos olhos de quem tem coragem para olhar além. Além da mediocridade do cotidiano, além do vazio dos discursos hipócritas, além do que é óbvio. O óbvio que por vezes ninguém vê.
Erro porque o erro faz parte da condição humana. Sou mulher; não supermulher; mulher com as incertezas concernentes à minha condição temporal. Condição humana.
Erro. E são esses mesmos erros que me condicionam ao desejo de crescer, atingindo alturas que me parecem inatingíveis, mas com as quais posso sonhar. São esses erros que me condicionam ao desejo de melhorar minha condição humana e a condição dos que me rodeiam; não pelo sentimento egoísta de receber glórias e agradecimentos, mas pelo sentimento inigualável de me saber humana.
Humana e fraca. Porém, forte. Forte porque humana, revestida de fraqueza, fraqueza que paradoxalmente recobre a força de ser mulher. Mulher que erra.
As vitórias me trazem sucesso, mas são as derrotas que me trazem experiência. E apenas com elas eu cresço.
(Dáuvanny Costa)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Intervalo

"Como há quem trabalhe de tédio, escrevo, por vezes, de não ter o que dizer. O devaneio, em que naturalmente se perde quem não pensa, perco-me eu nele por escrito, pois sei sonhar em prosa. E há muito sentimento sincero, muita emoção legítima que tiro de não estar sentindo".
(Fernando Pessoa/Bernardo Soares in Livro do Desassossego).

O "Livro do Desassossego" deu nome a esse blog - e já se passam quase quatro anos.
Blog originado do desassossego legítimo de uma alma mortificada por angústias inevitáveis e insuperáveis, todavia, sempre diligente no mister da observação. Nem sempre são as minhas confissões; por vezes são apenas percepções de um mundo incoerente.
O incentivo partiu do Lou. A culpa é dele.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Tente não ficar chocado



O título da notícia do Mídia Sem Máscara é "A pedofilia do Hamas"; o subtítulo é nauseabundo: "Um evento de gala ocorreu em Gaza. O Hamas foi o patrocinador de um casamento em massa para 450 casais. A maioria dos noivos estava na casa dos 25 aos 30 anos; a maioria das noivas tinham menos de dez anos".
O Hamas, você sabe, é o Movimento de Resistência Islâmica, grupo paramilitar e antissemita da Palestina. O que talvez você não saiba é sobre o "apoio" do PT (sim, eles) a esse grupo armado, conforme consta de uma nota oficial do PT: "O Partido dos Trabalhadores soma sua voz à condenação dos ataques que estão sendo perpetrados pelas forças armadas de Israel contra o território palestino e convoca seus militantes a engrossarem as manifestações contra a guerra e pela paz que estão sendo organizadas em todo o Brasil e no mundo. O PT reafirma, finalmente, seu integral apoio à causa palestina." (Ricardo Berzoini, Presidente Nacional do PT). Grifos meus.
Clique nos links e leia, não vai custar nada. Ou talvez custe. Algumas horas de reflexão e lamento. Não conferi a veracidade, mas seja como for, o assunto é pertinente, sempre.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Insone

Não durmo bem. Nunca dormi. Com o passar dos anos – não tantos anos assim, por óbvio – esse estado tem se agravado. Demoro a deitar. Deito e não durmo. Reviro-me na cama larga e olho o relógio que faz as horas correrem enquanto meu sono desaparece. Penso. Pensamentos que desassossegam-me. Tanta coisa que não sei, tantas histórias que não conheci, tantos sorrisos que não sorri, tanta felicidade que não senti, tanta vida que não vivi. Não sei nada - embora pareça achar que sei. Desesperadamente quero abraçar o mundo e os pensamentos incomodam-me. Tudo que ainda não fiz. Por medo ou ignorância. Falta de tempo ou dinheiro. Falta de espaço. Falta de mim. Perdi amigos e queria agora abraçá-los. Perdi oportunidades que passaram sorrateiras sorrindo cínicas diante de mim. Perdi tempo. Tempo que não volta. Amigos que não voltam. Amargurados ou somente ausentes.
Perdi a história. Perdi-me.
Acordo cansada por horas não dormidas, fugidas ao sono, fugidas ao descanso; entregue a pensamentos que não trazem mudança. Abro livros para tentar sanar a ignorância que me angustia. Desespero-me de saber tão pouco. Quero mais. Busco mais. Preciso de mais. Mais conhecimento - embora conhecimento não signifique sabedoria. As muitas letras trazem cansaço. Livros demais e tempo de menos. Ânsia demais para saber o que não sei e tempo de menos para aprender o que desejo.
Não durmo bem e o relógio denuncia meu desassossego de existir.
Outra noite assim.
(Dáuvanny Costa)