segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Ilusões de Florbela

"Fizeram-se ruínas todas as minhas ilusões, e, como todos os corações verdadeiramente sinceros e meigos, despedaçou-se o meu para sempre. Podiam hoje sentar-me num trono, canonizar-me, dar-me tudo quanto na vida representa para todos a felicidade, que eu não me sentiria mais feliz do que sou hoje. Falta-me o meu castelo cheio de sol entrelaçado de madressilvas em flor; falta-me tudo o que eu tinha dantes e que eu nem sei dizer-te o que era... É a história da minha tristeza. História banal como quase toda a história dos tristes".
(Florbela Espanca)

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Minha fé não cansa mas se cansa

Cansei dos escritos de meu tempo.
Cansei da pseudo-intelectualidade, do vazio dos discursos, das opiniões sem fundamento, da leviandade e da vileza das sustentações.
Cansei também da falta de beleza nos escritos de meu tempo. Pior: cansei dos poetas, dos profetas e dos religiosos.
Cansei de agora. Cansei de antes. Cansei de tudo.
Cansei dos pregadores de hoje – com irrefutável razão, todavia, cansei também dos pregadores de ontem, das opiniões dos outros, do Cristianismo maculado e do esquecimento da Bíblia.
Cansei das teorias, das fórmulas, dos decretos e das máximas. Cansei, principalmente, dos chavões religiosos.
Cansei dos Macedo, dos Soares, dos Lucados, dos Sobel, dos Marcelos – e não se adiante em me chamar pretensiosa, mas cansei também dos Gondins, dos Caios, dos Luteros, dos Calvinos, dos Yanceys, dos Chucks, dos Lewis. Cansei de mim. Reconheço, admito e confesso tê-los lido e aprendido com estes. Cada um, à sua maneira, têm palavras que encantam.
Hoje, todavia, eu desejo mais, eu anelo mais, eu aspiro mais. Por mais contraproducente que possa parecer, aspiro o simples: a mensagem da cruz. Quero-a de volta. Quero voltar a ler a Bíblia com a simplicidade dos primeiros tempos, com a inocência das primeiras letras. Quero voltar a ter olhos de criança.

Cansei das certezas dos outros. Quero que a Bíblia me inunde – até o transbordamento.
Quero me livrar da religião. Quero Cristo em mim. Quero aquele evangelho de outrora. Sem promessas ou expectativas. Hoje, quando meus planos se frustram, minha fé tenta deixar-me. Ela me pede 'um tempo'. Meu espírito angustiado não tem forças para argumentar; a fé, então, me diz que não pode permanecer em espaço tão congestionado de dúvidas. As dúvidas, de tão densas, se tornam quase tangíveis. Peço à ela para permanecer, cito Agostinho, Lewis, Barth e Bonhoeffer. Leio, para ela, Spurgeon. Não convenço-a. Não convenço-me. Não sou eu.
Ele quer a mim, não quer o Agostinho que li. O conhecimento alheio, por mais célebre e profundo que seja, não foi gerado em mim. Não nasceu de mim. Preciso das minhas certezas. A fé, ao notar minha procura, se arrisca a ficar um pouco mais e tentar conviver com as dúvidas. Brado, como desesperada, que não a quero, que ela pode partir; mas pobre de mim (!), ela sabe coisas que não sei – na verdade, não sei nada – e ela me fere como um punhal, mas seu desejo, estou certa, é curar-me. Não entendo-a. Não entendo o Mestre por tantas vezes usar de um tratamento tão duro com uma criatura tão frágil como eu, tão cheia de incertezas e obscuridades – tão pequena. Talvez eu não o entenda porque cansei.

Hoje minha alma quer somente descansar e recuperar as forças para buscar as minhas certezas. Que, espero, sejam as dEle.
(Dáuvanny Costa)